Tia Ciata: A Matriarca do Samba que Merece um Enredo no Carnaval do Rio
O anúncio de que Tia Ciata será o enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti no Carnaval de 2027, feito em 5 de março, próximo ao Dia Internacional da Mulher, não poderia ser mais simbólico. Essa escolha se alinha perfeitamente à luta pela igualdade de gênero, um tema que vai além de comemorações e deve ser lembrado todos os dias do ano. O enredo intitulado “Ciata – A mãe preta do samba” foi criado por Cláudio Russo e Luiz Antônio Simas e será desenvolvido pelo talentoso carnavalesco Renato Lage.
Nascida em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 13 de janeiro de 1854, Hilária Batista de Almeida, mais conhecida como Tia Ciata, foi uma matriarca e ativista fundamental na história do samba. Em 1876, aos 22 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu na região da Praça Onze, um local que se tornaria conhecido como Pequena África. Essa área central do Rio foi o berço de muitos sambistas e a casa de Tia Ciata se transformou em um espaço de resistência cultural e musical, onde o samba, trazido da Bahia, ganhou novas influências e ritmos.
A importância de Tia Ciata para a cultura do samba é inegável. É impressionante que, mais de um século após sua morte, em 1924, e quase 100 anos após o primeiro desfile das escolas de samba, em 1932, o legado desta grande mulher comece a ser reconhecido como merece. Sua influência no samba e sua força como mulher numa época marcada por preconceitos raciais e sociais são aspectos que tornam sua história relevante e digna de ser celebrada.
Além de sua contribuição como sambista, Tia Ciata era também uma quituteira e ialorixá, filha d’Oxum, e promovia um ambiente acolhedor em sua casa, onde muitos sambistas, em sua maioria negros oriundos das comunidades do Rio, podiam se reunir e criar. Ela incentivou a prática do samba em um tempo em que tocar e dançar samba era visto com desdém pela sociedade e pela polícia, que considerava essas manifestações culturais como sinônimo de vagabundagem.
Considerada uma agitadora cultural, Ciata não apenas participava das rodas de samba, mas também organizava esses eventos, contribuindo para a popularização do samba na cidade. Relatos históricos indicam que ela dominava a arte do partido alto e se destacava no miudinho, uma forma de dança muito característica do samba. Apesar de os homens terem ocupado por muito tempo o primeiro plano na história oficial do samba, as mulheres, como Tia Ciata, desempenharam papéis fundamentais, muitas vezes invisibilizados.
Assim, quando a Paraíso do Tuiuti escolhe Tia Ciata como enredo, não está apenas homenageando uma figura emblemática da cultura carioca, mas também ressaltando a importância das mulheres na construção da história do samba. O Carnaval de 2027 promete ser uma celebração não apenas da música, mas da força e resistência feminina que permeia esse gênero tão rico e essencial à identidade nacional.

