Petrobras e a Recusa de Pedidos Adicionais de Diesel
A Petrobras está recusando pedidos de distribuidoras por volumes adicionais de diesel, mantendo os preços do produto em suas refinarias com uma defasagem recorde em relação ao mercado externo. Essa situação foi confirmada por quatro fontes que falaram à Reuters. Na abertura do mercado nesta segunda-feira (9), o diesel da Petrobras vendido a distribuidoras apresentava uma diferença de R$ 2,74 por litro abaixo da paridade de importação, segundo cálculos da associação de importadores Abicom.
Uma fonte da estatal, que preferiu permanecer anônima, revelou que as distribuidoras estão solicitando cotas extras de combustíveis para aumentar seus estoques a preços mais baixos. No entanto, a empresa só está fornecendo as quantidades determinadas por contrato. “Não dá para fornecer cota adicional para que distribuidores façam estoque com diesel barato para depois vender e ‘fazer dinheiro em cima’ da Petrobras”, comentou a fonte.
A ausência de um reajuste nos preços por parte da Petrobras tem causado travamentos nas negociações internas e gerado incertezas no mercado quanto ao abastecimento futuro. Isso se torna ainda mais preocupante, considerando que cerca de 25% do consumo de diesel no Brasil é importado, segundo informações obtidas de três fontes e do presidente da Associação dos Importadores de Combustíveis, Sérgio Araujo.
Um representante de uma distribuidora destacou que a Petrobras enfrenta um dilema entre ajustar os preços ou abastecer o mercado adquirindo produtos mais caros no exterior. Essa situação pode gerar prejuízos significativos para a companhia. No entanto, elevar o preço do diesel pode resultar em uma reação negativa para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente em um ano eleitoral.
Na semana anterior, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, enfatizou que a empresa não transfere as volatilidades do mercado externo para o mercado interno, e que estava avaliando o cenário para definir um novo patamar de preços do petróleo antes de considerar eventuais reajustes. Araujo mencionou que a semana passada não teve negócios de importação devido à incerteza, e alertou que, dentro de 20 a 30 dias, pode haver falta de volumes importados.
Impactos da Defasagem de Preços no Mercado
O presidente da Abicom ressaltou que a defasagem nos preços amplia a preferência pelo diesel da Petrobras, deslocando a demanda de alternativas importadas e refinarias privadas. Isso provoca alterações nos fluxos de combustíveis e impactos logísticos, que podem criar descompassos no abastecimento.
A Petrobras, até o momento, não se manifestou sobre o assunto. Porém, as incertezas em torno da oferta de diesel também podem gerar outros problemas, como o que foi reportado no Rio Grande do Sul. Nesse estado, que possui duas refinarias e uma ampla oferta de diesel, foi observada uma restrição na oferta do produto para o setor do agronegócio.
A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) anunciou no último domingo que irá investigar denúncias sobre dificuldades na aquisição de diesel por produtores rurais na região, além de alegações de aumentos “injustificáveis” nos preços do combustível, especialmente durante a colheita das principais safras.
Conforme Araujo, os consumidores da região estão tentando adquirir diesel com base no preço praticado pela Petrobras, enquanto os transportadores revendedores (TRRs) exigem valores mais altos para se proteger de um possível aumento nos custos de reposição. Ele explicou: “Não é que falte produto. A dificuldade está no fato de que o comprador quer adquirir com o preço da Petrobras, enquanto o vendedor pensa que amanhã poderá necesitar comprar por um preço maior”.
A situação se complica com a possibilidade de agentes retendo produto de forma especulativa, à espera de um aumento nos preços. Em uma carta obtida pela Reuters, o SindTRR (Sindicato Nacional do Comércio Transportador-Revendedor-Retalhista) relatou que “desde que começamos a receber reclamações de associadas de todas as regiões do país sobre restrições no fornecimento de diesel, mantivemos contato com as superintendências da ANP para informar sobre as restrições existentes”.
Além disso, a fonte da distribuidora destacou que o TRR opera majoritariamente no mercado spot, sem contratos, e que atualmente há uma demanda intensa por diesel devido à supersafra. Em momentos de alta demanda, o mercado tenta atender ao máximo, priorizando quem possui contratos. O IBP, que reúne as maiores distribuidoras, e a Brasilcom, que representa as distribuidoras regionais, também não se pronunciaram sobre a questão.
A ANP afirmou que, durante o final de semana, contatou os principais fornecedores na região e apurou que o Rio Grande do Sul “conta com estoques suficientes para garantir o abastecimento regular de diesel”.

