Atração Viral e Polêmicas
Enquanto turistas aguardam pacientemente, algumas mulheres retocam a maquiagem em uma laje na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. O cenário é perfeito para registrar imagens aéreas que têm se tornado virais nas redes sociais. Com uma trilha sonora animada, o vídeo da comunidade ganhou notoriedade em meio ao crescimento do turismo na cidade, que bateu recordes de visitantes nos últimos meses.
A popularidade do local é de tal magnitude que há relatos de pessoas esperando até duas horas para realizar o registro fotográfico, sendo que o valor cobrado pode chegar a 150 reais. Em um caso inusitado, uma proposta de casamento aconteceu durante uma dessas filmagens, mostrando o quanto o local se tornou um ponto de interesse.
No entanto, essa nova onda de turismo também trouxe críticas. Nas redes sociais, muitos usuários expressaram desconforto, acusando os visitantes de romantizar a pobreza e a criminalidade em um espaço que enfrenta desafios socioeconômicos. “Não estamos romantizando a pobreza. O objetivo é combater o preconceito que existe na mente das pessoas”, defende Renan Monteiro, fundador da empresa Na Favela Turismo.
De acordo com Monteiro, o vídeo é parte de um esforço para destacar os aspectos positivos da favela. Ele enfatiza que os turistas só têm acesso à laje para filmagens por meio de um tour, que os leva por um labirinto de becos, onde podem interagir com moradores, visitar artistas locais e até assistir a performances de capoeira.
Experiências Diversificadas
Gabriel Pai, um turista da Costa Rica, compartilha sua impressão após a visita. “A Rocinha é frequentemente vista de forma negativa, mas eu fiquei encantado com o ambiente”, disse ele. Em um mundo onde as narrativas muitas vezes são unidimensionais, sua experiência trouxe uma nova perspectiva.
Influenciadora brasileira conhecida, Ingrid Ohara, com 12 milhões de seguidores no Instagram e 20 milhões no TikTok, também não ficou de fora. Atraída pela oportunidade de gravar conteúdo viral, ela atravessou a laje vestindo um roupão, que logo tirou para revelar um vestido mais ousado, enquanto o drone capturava tudo. “Esses vídeos que faço sempre têm grande visualização, e eu quis fazer aqui na Rocinha, pois está ganhando destaque mundial”, declarou à AFP.
Ela acredita que o que está sendo mostrado nas filmagens é uma parte importante da cultura carioca, refletindo a beleza e a diversidade do Rio de Janeiro.
Um Novo Rumo para o Turismo Local
Monteiro, que tem raízes na Rocinha, relembra os primórdios do turismo “tipo safári” na favela, que atraía visitantes em jipes abertos. No entanto, a tragédia de 2017, quando uma turista espanhola foi morta em um tiroteio, fez com que o turismo fosse interrompido por um período. Após a retomada, Monteiro se dedicou a elaborar uma maneira segura de apresentar a favela ao público.
Em parceria com líderes comunitários, ele desenhou rotas turísticas e lançou um aplicativo que ajuda a monitorar a segurança dos guias. Assim, se uma operação policial ocorrer, as visitas são imediatamente canceladas para preservar a segurança de todos.
O impacto dessa iniciativa é visível: foram formados 300 guias locais e dez pilotos de drone, como Pedro Lucas, de 19 anos. Ele compartilha como o trabalho transformou sua vida, oferecendo-lhe novas oportunidades. “Ganhei um bom dinheiro, e seria ótimo se mais pessoas da favela tivessem essa chance”, afirmou.
O Crescimento do Turismo no Rio
O turismo na cidade está em franca ascensão, com dados da Embratur indicando que, só em janeiro, quase 290 mil turistas internacionais visitaram o Rio, um recorde impressionante. Em fevereiro, a empresa Na Favela Turismo contabilizou 41 mil visitantes nas comunidades da Rocinha e Vidigal.
Para Claudiane Pereira dos Santos, uma moradora de 50 anos, essa “febre turística” é motivo de celebração. Embora algumas pessoas ainda associem a Rocinha a criminalidade, ela a vê como um lugar repleto de trabalhadores dignos e pessoas incríveis. “Muita gente boa vive aqui”, afirmou.
Por outro lado, Cecilia Oliveira, diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado, faz uma análise crítica da situação. Ela observa que, embora muitos moradores vejam o turismo como uma fonte legítima de renda, é importante que a favela não se torne apenas um cenário exótico ou pano de fundo para produções que banalizam suas complexidades sociais. “A Rocinha é um bairro vivo, e precisa ser reconhecida em sua totalidade”, concluiu.

