Como a Guerra no Oriente Médio Afeta os Preços dos Alimentos no Brasil
A recente escalada do conflito no Oriente Médio já é perceptível nas prateleiras do Brasil, especialmente devido ao impacto nos preços dos fertilizantes. O Estreito de Ormuz, uma rota crucial para o transporte de 30% dos fertilizantes comercializados globalmente, está praticamente fechado, o que encarece o frete e aumenta os custos de importação desses insumos. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), essa situação pode afetar diretamente o bolso do brasileiro.
Relatórios apontam que cerca de 45% das exportações globais de ureia utilizam rotas do Golfo Pérsico. Em 2025, o Brasil importou aproximadamente 43,32 milhões de toneladas de fertilizantes, enquanto sua produção nacional foi de apenas 7,22 milhões de toneladas. Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) revelam que o país depende, em média, de 85,7% de fertilizantes importados, com os nitrogenados liderando as importações.
O preço da ureia já registrou um aumento significativo de 33% desde o início do conflito, um reflexo do aumento no custo do gás natural, que é utilizado na sua produção. Alberto Pfeifer, pesquisador do Insper Agro Global, observa que as safras em curso estão cobertas com estoques de fertilizantes, mas os efeitos da guerra devem ser sentidos na próxima safra de verão, que começa em agosto. Os agricultores precisam estar atentos à evolução do conflito, pois isso influenciará o planejamento agrícola.
Além disso, os fertilizantes fosfatados também estão registrando aumentos, com uma elevação de cerca de 8% nos preços. Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, destaca que o nitrogênio disponível está sendo utilizado nas safras atuais, mas é crucial para os produtores garantir seus insumos com antecedência, considerando que o prazo para pedidos vai até junho. O que se observa é uma corrida por fertilizantes, especialmente nos EUA e em partes da Europa, onde o plantio de milho ocorre antes do brasileiro.
O aumento nos custos de ureia e outros fertilizantes nitrogenados pode abrir precedentes para uma possível redução da área plantada em diferentes países, alterando a dinâmica de preços de commodities como milho e soja. Míriam Leitão, comentarista econômica, ressalta que, embora o impacto atual no Brasil seja limitado, a incerteza no mercado de fertilizantes precisa ser cuidadosamente monitorada.
De acordo com Mauro Osaki, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a falta de crédito pode ter dificultado alguns produtores de antecipar a compra de fertilizantes. Isso poderá resultar em consequências negativas para culturas como trigo e cevada, que já enfrentam dificuldades de rentabilidade. Aqueles que não compraram os insumos a tempo podem se ver obrigados a reduzir a área plantada ou a qualidade do cultivo.
Embora haja a possibilidade de direcionar as compras para outros países, a dificuldade em encontrar volumes disponíveis e preços competitivos representa um entrave. Marcos Pelozato, advogado especializado em reestruturação no agronegócio, acredita que as importações podem se tornar mais onerosas, o que poderá atrasar a entrega dos produtos e elevar ainda mais os preços. Essa situação de escassez não deve redundar em falta de alimentos à curto prazo, mas a expectativa é de um aumento considerável nos preços.
Os produtos mais suscetíveis à alta de preços incluem hortaliças, legumes e grãos como milho, soja e trigo. Se a guerra persistir, o impacto poderá se estender a outros alimentos essenciais, como carnes e laticínios, uma vez que as rações para animais também são baseadas no milho e na soja. A interconexão entre o mercado internacional e o abastecimento interno torna essa situação crítica e merece atenção redobrada.

