A Sombria Lenda da Bruxa do Arco do Teles
A lenda de Bárbara dos Prazeres, a famosa Bruxa do Arco do Teles, perdura por séculos no Centro do Rio de Janeiro. Essa narrativa, que mistura folclore e história, revela um pouco sobre o passado da cidade e as crenças que a cercam.
Documentos históricos, que podem ser encontrados no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, ajudam a traçar a origem dessa intrigante lenda. Segundo a história, no fim do século XVIII, chegou ao Brasil uma portuguesa conhecida por sua beleza excessiva, mas também por sua fama aterradora. Com o passar do tempo, ao envelhecer e adoecer, ela supostamente buscou a imortalidade através de práticas de feitiçaria, incluindo o ato macabro de beber o sangue de crianças.
O historiador Pedro Higino, que gerencia a comunicação do Arquivo, menciona que existem documentos que revelam processos por feitiçaria na cidade desde aquele período. “Em 1770, foram registrados autos de feitiçaria e denúncias na Câmara de Vereadores”, conta ele. Higino acrescenta que, na época, a maioria das acusações recaía sobre mulheres.
“O papel feminino nesse contexto de feitiçaria é muito estigmatizado. As mulheres frequentemente eram rotuladas como feiticeiras”, observa. Ele explica que essa dinâmica ajuda a compreender a associação de figuras femininas a contos sobrenaturais. “Mulheres que demonstravam autonomia ou que simplesmente não se encaixavam nos padrões sociais frequentemente se tornavam alvos de acusações”, completa.
Um dos processos arquivados se inicia em 1770 e se estende até 1790, período em que a lenda de Bárbara dos Prazeres ganha destaque. O que exatamente diz a lenda?
Diz-se que a mulher, ao desembarcar no Arco do Teles, adotou o nome de Bárbara dos Prazeres, tornando-se uma figura notória, procurada por homens influentes da cidade. Entretanto, após envelhecer e adoecer, teria se entregado às feitiçarias, buscando reverter seu estado através de práticas terríveis.
Desaparecendo misteriosamente, a bruxa estaria agora presa à lenda urbana que ainda inquieta os moradores e visitantes do Centro do Rio.
Elementos Históricos e a Conexão com o Passado
Junto a essa narrativa, existem elementos históricos que comprovam a relação da Bruxa do Arco do Teles com a realidade da época. A tradição popular sugere que seu nome tenha origem em uma imagem de Nossa Senhora dos Prazeres que estava localizada na região, agora preservada na Igreja de Santo Antônio dos Pobres.
Além disso, há relatos que associam Bárbara ao desaparecimento de crianças durante o Brasil colonial. A famosa roda dos expostos, que permitia o abandono anônimo de bebês, é um exemplo dessa realidade. “Era uma instituição onde pais deixavam seus filhos, e o mecanismo girava para o recolhimento dos órfãos, que eram acolhidos por padres e freiras”, explica Paulo Knauss, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Um equipamento dessa época ainda pode ser encontrado em um museu da instituição.
A Expressão que Transcende a Lenda
A história e o medo gerados por essa figura lendária resultaram na expressão popular “a bruxa tá solta”, que ainda é utilizada nos dias de hoje. “Esse termo surgiu para alertar sobre possíveis perigos, especialmente em relação às crianças”, diz Higino.
Com o tempo, a expressão evoluiu e passou a ser usada de forma mais ampla para descrever situações de azar ou acontecimentos negativos em sequência. “Acredito que Bárbara dos Prazeres existiu, talvez de uma maneira diferente da que a lenda retrata. Foi uma mulher que marcou presença na cidade”, reflete um especialista sobre essa fascinante figura do passado carioca.

