Entendendo a Efervescência Coletiva em Shows
O momento parece flutuar no tempo, ancorado nas interações entre as pessoas ao redor. Durante shows ao vivo, uma onda de eletricidade percorre o corpo, gerando uma alegria intensa e singular compartilhada entre estranhos. Essa experiência, um conceito introduzido pelo sociólogo Émile Durkheim, é utilizada para descrever o fenômeno da efervescência coletiva. Em eventos como festivais e celebrações, essa sensação de união e entusiasmo é palpável.
Os shows ao vivo têm se consolidado como uma parte essencial do entretenimento brasileiro, e a efervescência coletiva é frequentemente relatada nessas ocasiões. Yasmin Massa, uma analista de marketing de 26 anos, recorda sua primeira experiência em um show. Desde os sete anos, quando viu Floribella ao vivo, ela se encantou.
“A sensação é inigualável quando o artista finalmente sobe ao palco. Você percebe que ele é real e não uma miragem. E ao seu redor, todos choram e gritam juntos, compartilhando a mesma emoção”, conta Yasmin, que já compareceu a mais de 200 apresentações.
Por sua vez, Larissa Henrique, de 24 anos, também é uma amante de shows e relata que sua melhor experiência foi quando assistiu ao Coldplay sozinha, em 2023. “Foi uma conexão intensa com o público. Todos ali pareciam compartilhar a mesma emoção. Senti como se estivesse fora da realidade, apenas vivendo a música”, revela a engenheira agrimensora, enfatizando a leveza e liberdade que a música traz.
Com o festival Lollapalooza acontecendo entre os dias 20 e 22 de março no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, muitos jovens se preparam para criar novas memórias. Yasmin está ansiosa para ver seus artistas favoritos e enfatiza que cada apresentação é uma realização de sonho.
Como a Música Afeta Nosso Cérebro
A psicóloga Cristiane Pertusi, doutora pela USP, explica como o cérebro humano é, em essência, social. “A nossa biologia busca conexões sociais como um ímã. Quando estamos em um grupo com um objetivo comum, como a música ao vivo, nossos cérebros se sincronizam”, esclarece.
A psiquiatra Laiana Quagliato, professora na UFRJ, detalha que a música ao vivo provoca uma desconexão do “eu” individual, permitindo uma narrativa compartilhada entre os participantes. “Esse estado transforma as redes cerebrais, reduzindo a autocrítica e as barreiras entre o ‘eu’ e os outros”, explica.
Segundo Quagliato, ouvir música em casa ativa diferentes circuitos do cérebro, mas a experiência ao vivo é enriquecida por uma série de interações sociais e emocionais. “Quando cantamos juntos, nossa frequência cardíaca e respiratória podem se sincronizar. Isso eleva a experiência a um ritual coletivo”, destaca.
Pertusi complementa que a efervescência é acompanhada pela liberação de hormônios como endorfina, dopamina e ocitocina, que reforçam memórias positivas. “Viver esse estado de euforia, sem substâncias externas, é extremamente benéfico”, observa.
Rituais Coletivos: Música e Espiritualidade
Ao questionar se a efervescência em shows se assemelha a experiências religiosas, Quagliato concorda. “Tanto em shows quanto em ambientes religiosos, buscamos uma conexão profunda, um objetivo comum. Os shows se tornam rituais onde compartilhamos emoções intensas”, afirma.
Entretanto, na era digital, a atenção plena no momento presente se torna um desafio. A psiquiatra alerta sobre a importância de se desconectar de celulares durante as apresentações. “A efervescência se fortalece quando estamos totalmente presentes, sem distrações. Focar no celular pode dificultar essa experiência”, afirma.
Outro ponto a ser considerado é a “ressaca emocional” que muitas pessoas enfrentam após shows. “Após um evento emocionante, a vida normal pode parecer monótona. É fundamental reconhecer que as emoções vividas são únicas”, ressalta. Para facilitar a transição, a especialista sugere priorizar o sono e atividades físicas após o evento, em vez de buscar outros picos de excitação nas redes sociais.

