Uma Reflexão sobre Corpo e Tempo nas Matrizes Afrodiaspóricas
Com a participação de Carmen Luz e Luciano Mendes, a discussão no Sesc São Paulo aborda as epistemes afrodiaspóricas, focalizando o corpo como um espaço de encruzilhadas que reflete atravessamentos históricos, políticos e espirituais. Neste contexto, o tempo é entendido de maneira não linear, em contraste com a lógica ocidental. Em vez da noção de sequência temporal, ele se revela como uma espiral, um movimento de dobra e deslocamento. Por meio das obras e pensamentos de artistas e pesquisadores que se baseiam em cosmopercepções negras, a conversa busca explorar como a dança se transforma em uma linguagem de resistência, memória e criação de novos mundos.
Carmen Luz, natural do Rio de Janeiro, é uma figura multifacetada: coreógrafa, diretora de cinema, curadora e educadora. Com uma sólida formação acadêmica, ela é mestre em Arte e Cultura Contemporânea pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e possui pós-graduação em Teatro e Cinema Documentário pela UFRJ e pela Fundação Getulio Vargas. Como fundadora e diretora artística da Cia. Étnica de Dança, Carmen também se destacou na produção de documentários que foram exibidos em festivais internacionais, como “Um poema para Quenum” e “Tia Lucia”. Além disso, criou o curso de Danças Negras na Faculdade Angel Vianna, onde leciona com dedicação.
Por sua vez, Luciano Mendes de Jesus traz uma perspectiva acadêmica robusta. Doutor em Artes Cênicas pela ECA – USP, ele investiga as políticas de amizade e a construção da identidade afrodescendente em ambientes artísticos interculturais. Seu trabalho é fundamentado em investigações sobre as contribuições de culturas africanas e diaspóricas, com base na pesquisa de Jerzy Grotowski. Com mestrado em Música e formação em Artes Cênicas, Luciano leciona nas áreas de Sonoridades e Musicalidades nas Artes Cênicas e atua como professor convidado na Escola de Arte Dramática da USP.
A convergência dos saberes de Carmen e Luciano oferece uma rica oportunidade para refletir sobre a importância das práticas culturais afrodescendentes na sociedade contemporânea. Ambos os artistas ressaltam como o corpo se torna um espaço de resistência e de afirmação de identidades, contribuindo para a construção de narrativas que desafiam a história oficial. Ao abordar a dança como um ato de insurgência, eles propõem um olhar renovado sobre como as tradições afrodiaspóricas moldam não apenas a arte, mas também a experiência de vida dos povos que delas emergem.
Essa discussão, mediada por Paula Souza, promete instigar o público a repensar suas percepções sobre o tempo e o espaço, alinhando-se a um movimento cultural que busca resgatar e valorizar as vozes e corpos que muitas vezes foram silenciados ao longo da história. A abordagem inovadora de Carmen Luz e Luciano Mendes de Jesus pode, assim, abrir caminhos para novas práticas artísticas e um entendimento mais profundo da nossa herança cultural.
Em suma, o evento no Sesc São Paulo não se limita a uma mera apresentação sobre dança, mas se constrói como um espaço de encontro e reflexão sobre como as tradições afrodiaspóricas ainda influenciam e reinventam a cultura contemporânea. É um convite para que todos que se interessam por arte e identidade participem dessa conversa vital que ecoa através das gerações.

