Reflexões Sobre o Sucesso de ‘Friends’
Após o cancelamento da série “Phenom” em 1993, o roteirista Adam Chase, então com apenas 22 anos, descreveu a experiência como uma “tragédia horrível”. Contudo, essa adversidade se transformou em uma oportunidade que mudaria sua vida. “Só porque estava disponível, consegui um emprego em ‘Friends'”, revelou em uma entrevista ao GLOBO por chamada de vídeo. Nascido em Nova Jersey e atualmente residente em Los Angeles, Chase recorda com surpresa o impacto que a série teve. Para ele, a série se tornou um dos maiores fenômenos da televisão americana e um verdadeiro pilar da cultura pop nos anos 90. Ele fez parte da equipe de roteiristas desde o primeiro episódio em 1994 até 2000, chegando a assumir a função de produtor executivo durante quatro anos. Essa experiência não só o destacou no cenário televisivo, como também o trouxe ao Rio2C, um evento de criatividade que acontece na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, entre os dias 26 e 31 de maio. Chase participará de um painel no dia 28, com Fábio Porchat, intitulado “Friends & Porta dos Fundos: Amizade e Riso como Linguagem Universal”.
Em sua fala, Chase discorreu sobre o que significa criar uma “linguagem universal” em tempos de nichos de streaming e redes sociais. “Quando escrevo sobre algo que é verdadeiramente significativo para mim, sem pensar em quem vai consumir, é mais fácil para o público se identificar. Quanto mais específica é a narrativa, mais universal ela se torna, pois as emoções são globais”. Ele e os criadores de ‘Friends’, David Crane e Marta Kauffman, sempre buscavam essa conexão, mesmo reconhecendo as falhas de representatividade da série.
Desafios da Representatividade nas Comédias
Chase admite que, se pudesse refazer a série, não repetiria algumas das escolhas do passado. “Provavelmente não teríamos seis atores brancos. Sou uma pessoa completamente diferente 30 anos depois e, como já disse o comediante Jerry Seinfeld, quando a sociedade muda, nós mudamos também”. As mudanças sociais impactaram a forma como as novas gerações consomem cultura. A Geração Z, nascida entre 1997 e 2010, e a Geração Alpha, que chegou ao mundo após 2010, continuam a ser grandes fãs de ‘Friends’, apesar das críticas. Um estudo do National Research Group revelou que cerca de 60% dos jovens preferem conteúdos clássicos de catálogo a novos lançamentos. Chase compartilha que suas filhas refletem essa tendência: a mais velha, de 12 anos, é fã de “Modern Family”, enquanto a mais nova, de 10, se encanta com “Três é Demais”. Para ele, essa paixão se deve ao fato de que os espectadores desejam um investimento emocional em uma série que não acabe rapidamente.
A Escassez de Tempestades na TV Atual
“Quando você se apega a um novo programa e gosta, não quer que ele termine logo. Quer reviver aqueles momentos”, argumenta o roteirista, conhecido por seu trabalho em “Mom”. Ele lamenta a rapidez com que muitos programas são cancelados atualmente, frequentemente após apenas duas ou três temporadas. Chase considera que esse fenômeno torna o conteúdo de catálogo ainda mais valorizado, pois permite que o público reassista e reexperimente histórias e personagens. De acordo com ele, a ideia de um “novo Friends” não faz sentido, e ele recusa propostas que nesse sentido. “O próximo ‘Friends’ será algo completamente diferente, e só em retrospectiva poderemos notar que era de certa forma uma continuação”.
Atualmente, Chase está focado em desenvolver uma série no formato de falso documentário, em parceria com Ken Jeong, além de uma comédia natalina sob a direção de Chris Columbus. Contudo, ele destaca que o maior desafio na atualidade é a saturação de ideias e da atenção do público. “Hoje, a competição vai muito além de roteiristas profissionais. Você também compete com universitários que têm ideias autênticas e hilárias, e a luta para se destacar é enorme”.
Memórias de um Gênio
Com 140 episódios de ‘Friends’ no currículo, Adam Chase reconhece que tem um pouco de cada personagem em sua própria personalidade. Ele menciona a sua “necessidade quase obsessiva de fazer piadas” semelhante à de Chandler, além da lealdade de Joey e a espontaneidade de Phoebe. Chase recorda que a série era vista pela equipe como um “cubo mágico”, onde cada personagem tinha seu momento ao longo da temporada. Entretanto, um ator em particular sempre se destacou: Matthew Perry, que interpretou Chandler e faleceu em outubro de 2023. “Ele era realmente um gênio. Tê-lo na equipe era como ter outro roteirista conosco. Sua habilidade de dar vida ao personagem e trazer novas sugestões para as cenas era impressionante. Ele sempre surpreendia”, relembra Chase.
Os ensaios na presença dos roteiristas eram comuns, e Matthew frequentemente surpreendia com suas ideias, junto com Matt LeBlanc. Chase admite ter ciúmes da capacidade de Perry de atuar e escrever simultaneamente. Nascido em Nova Jersey, ele começou sua carreira atuando, mas logo percebeu que sua verdadeira vocação estava na escrita. “Quando cheguei a Los Angeles, já havia abandonado a ideia de ser ator e comecei a explorar a escrita, algo que me trouxe até aqui”.

