O Impacto das Crises Políticas na Economia Peruana
O Peru, que irá às urnas neste domingo (12) para escolher um novo presidente, é um exemplo marcante de gestão macroeconômica na América Latina. Nos últimos anos, mesmo diante de instabilidades políticas e constantes trocas de liderança, o país conseguiu não apenas manter suas contas públicas em ordem, como também atrair investimentos significativos e sustentar um crescimento econômico considerável. No entanto, essa aparente robustez da economia peruana contrasta com a realidade vivida pela população, que enfrenta os efeitos diretos da turbulência política.
Especialistas, como o economista Armando Mendoza, do Centro Peruano de Estudos Sociais, afirmam que, apesar dos dados positivos, a economia peruana opera em um “modo zumbi”, onde o crescimento é limitado pela instabilidade política. “Esta impressão de que a política e a economia no Peru caminham em direções distintas é, em parte, enganosa. Há um ponto em que a política definitivamente afeta a economia”, destaca Mendoza em entrevista à BBC News Mundo.
Os Favoritos nas Eleições de 2024
Neste contexto eleitoral, Rafael López Aliaga, ex-prefeito conservador de Lima, e Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, despontam como os principais candidatos para o segundo turno, de acordo com pesquisa do jornal El Comercio. Ambos representam visões opostas em um país que tem visto sua política marcada por crises e escândalos nos últimos anos.
Desde que Pedro Pablo Kuczynski renunciou ao cargo em 2018, o país já teve oito presidentes, gerando incertezas que se refletem em sua economia. A taxa média de crescimento do PIB desde então é de apenas 2,3%, longe do potencial que poderia ser alcançado. Mendoza observa: “O crescimento existe, mas é um reflexo de oportunidades perdidas. Se tivéssemos políticas econômicas mais consistentes, poderíamos estar crescendo a taxas de 5% ou 6%”.
Estruturas Econômicas que Sustentam o Crescimento
A economia do Peru, por outro lado, possui características que a favorecem. Com uma moeda estável e uma gestão independente do Banco Central, o país conseguiu criar um ambiente favorável para investidores. Essa autonomia permitiu ao Banco Central de Reserva do Peru (BCRP) evitar a influência de disputas políticas, aplicando políticas econômicas baseadas em critérios técnicos.
Durante as duas primeiras décadas do século 21, o país registrou um crescimento do PIB superior a 4% ao ano, com alguns anos superando 10%. No entanto, a realidade atual é de um crescimento abaixo do esperado, principalmente considerando a valorização de suas principais matérias-primas, como ouro e cobre.
Os Efeitos da Instabilidade Política
Os impactos da instabilidade política são evidentes. Em 2023, após a destituição do presidente Pedro Castillo, a economia do Peru retraiu 0,55%, o que deixou claro o quanto a política pode impactar negativamente o desempenho econômico. “Com o desajuste político, é impossível implementar políticas econômicas sustentadas”, ressalta Mendoza.
Cenários de instabilidade resultam em uma média de permanência dos presidentes de apenas dois anos, e os ministros da Economia duram, em média, sete a oito meses. Essa volatilidade torna a execução de políticas de longo prazo extremamente desafiadora, especialmente em setores que exigem grandes investimentos, como a mineração.
Desafios Futuros e Oportunidades Pendentes
Com as eleições se aproximando, a corrupção surge como uma das maiores preocupações para os peruanos. Escândalos políticos têm levado à queda de vários presidentes e a criminalidade associada ao tráfico e à mineração ilegal adiciona uma camada extra de complexidade à situação econômica. Mendoza observa que a mineração ilegal, por exemplo, gerou cerca de US$ 11,5 bilhões em exportações não registradas no ano passado.
Agora, a economia do Peru depende não apenas das próximas eleições, mas também da situação global, especialmente em relação ao conflito no Oriente Médio, que já impacta os preços do petróleo. O Banco Central estima um crescimento de 2,9% para este ano, o que, se concretizado, colocaria o Peru como uma das economias que mais crescem na região. Entretanto, a continuidade dessa trajetória dependerá da estabilidade política e das escolhas que serão feitas nas urnas.
Os novos líderes enfrentarão o desafio de guiar o país para longe do seu “modo zumbi” e direcionar a economia para um crescimento robusto e inclusivo, promovendo assim o bem-estar da população.

