O silêncio como Necessidade Vital
No Rio de Janeiro, o barulho não é apenas uma parte do cotidiano; ele molda a rotina de seus habitantes. Buzinas, obras, músicas altas e conversas constantes criam um fluxo de sons que raramente se interrompe. Em muitos restaurantes, torna-se difícil manter uma conversa. Em uma cidade onde tudo acontece simultaneamente, o silêncio se torna uma raridade. Comemorado em 7 de maio, o Dia Mundial do Silêncio, criado pela Organização Mundial da Saúde, sugere um antídoto para a hiperatividade do dia a dia: uma pausa reflexiva diante do excesso.
Contudo, o desafio do silêncio vai além de um mero incômodo. Para especialistas, essa prática é uma necessidade biológica e psicológica frequentemente ignorada em uma sociedade marcada pela superexposição sensorial. A psicóloga Anastacia Barbosa salienta que a falta de silêncio gera consequências profundas e muitas vezes invisíveis no cotidiano das pessoas.
“Vivemos em uma cultura que teme o silêncio. Nas grandes cidades, o barulho é incessante, tanto externo quanto interno. Sem momentos de silêncio, não conseguimos processar emoções e pensamentos. Essa ausência leva a um acúmulo de estímulos que, por sua vez, pode resultar em sobrecarga mental”, explica a profissional. A falta desse espaço para reflexão pode gerar cansaço constante, dificuldades de concentração e irritabilidade, além de uma persistente sensação de que a vida está passando apressadamente.
A Dificuldade em Aceitar o Silêncio
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O criador de conteúdo Luís Augusto Brito é uma das vozes que reconhece essa dinâmica em sua própria vida. Ele revela que evita o silêncio: “Não gosto de silêncio. Minha mente está sempre ativa. Quando me permito parar, sinto que estou procrastinando. Por isso, mantenho a TV ligada ou estou sempre mexendo no celular. Não consigo ficar em silêncio, e estou tentando entender isso na terapia, pois reconheço que me afeta.”
Se, do ponto de vista emocional, o silêncio é crucial para a organização mental, fisicamente ele também desempenha um papel recuperativo. O otorrinolaringologista Thiago Zago alerta para os danos auditivos causados pelo ruído excessivo nas áreas urbanas. “Estamos vendo um aumento no número de pacientes expostos a ruídos altos regularmente, principalmente em ambientes urbanos. Sons acima de 85 decibéis, se frequentes, podem causar danos permanentes ao aparelho auditivo”, afirma o médico.
Consequentemente, tornar as pausas um hábito se transforma em uma estratégia de saúde necessária, especialmente em ambientes de alta pressão cognitiva, como os preparatórios para vestibulares.
Integração do Silêncio na Vida Acadêmica e Corporativa
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A professora de yoga Clarissa Quintanilha, que atua com estudantes sob alta pressão, aponta que as aulas de yoga – oferecidas sem custo adicional aos alunos – inserem-se naturalmente na rotina acadêmica. “Os estudantes enfrentam uma carga intensa de estudos e pouca oportunidade para descanso. As sessões de yoga não são uma fuga do objetivo, mas sim uma oportunidade de reconexão com o corpo e a mente”, destaca.
Na esfera corporativa, o silêncio também começa a ser visto como uma ferramenta de produtividade. A especialista em saúde mental organizacional, Daisy Cangussú, com mais de três décadas de experiência na área, defende que o silêncio deve ser incorporado como uma estratégia de bem-estar. “Em um ambiente onde a estimulação é constante, o silêncio torna-se um recurso valioso para manter a saúde mental e a eficiência no trabalho. O cérebro humano tem limitações em manter a atenção em contextos de alta pressão. Sem pausas, não há recuperação das capacidades cognitivas, o que pode afetar decisões e a autorregulação emocional”, explica.
Daisy também enfatiza a necessidade de um compromisso estrutural por parte das empresas. “Criar espaços para o silêncio não é um luxo, mas sim uma estratégia essencial de saúde. Isso pode incluir desde a criação de salas silenciosas até a organização do trabalho, com intervalos entre reuniões e limites de comunicação fora do expediente.”
Silêncio: Um Convite à Reconexão Interior
Para muitos, o silêncio ainda é visto como desafiador. Contudo, alguns, como o ator Phellipe Marques, veem nessa prática uma forma de reconexão. “O Dia do Silêncio é um convite para olharmos para dentro e avaliarmos nossa saúde mental. No budismo, essa prática é parte do cotidiano, permitindo-nos buscar nosso eu interior”, reflete.
A atriz Raiza Noah, que também pratica o budismo, reconhece a importância do silêncio em sua vida pessoal. “O silêncio é essencial para mim, pois me ajuda a estabelecer uma conexão profunda com meu eu interior, longe de distrações.”
Entre aqueles que buscam o silêncio e os que ainda resistem a ele, todos têm uma percepção em comum: o excesso de estímulos tem um preço. Em uma cidade que nunca desacelera, a pausa precisa ser uma escolha consciente. O Dia Mundial do Silêncio nos convida a não apenas diminuir o barulho externo, mas a criar um espaço interno onde possamos ouvir o que realmente importa.

