O papel do clima no avanço das doenças transmitidas por mosquitos
O crescimento das temperaturas, as mudanças nas chuvas e a ocorrência de eventos climáticos extremos têm alterado o ambiente onde vivem mosquitos e outros vetores, facilitando a circulação de vírus no Brasil. Essas transformações climáticas modificam o território de atuação de doenças que antes estavam restritas a regiões específicas, permitindo que se espalhem para novos locais.
O Brasil concentra uma grande diversidade de insetos transmissores de arboviroses, como mosquitos e carrapatos, responsáveis por doenças conhecidas como dengue, zika e chikungunya, além de vírus menos frequentes, como o oropouche, mayaro e o recente vírus do Nilo Ocidental.
Casos recentes e o impacto do clima na transmissão
Em agosto de 2026, São Paulo registrou os primeiros casos humanos de febre do Nilo Ocidental, em pacientes das cidades de Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. Santa Catarina confirmou dois casos e uma morte pela doença, enquanto um caso está em investigação no Piauí. Esses exemplos mostram como o clima influencia diretamente a ecologia das doenças transmitidas por vetores, que são organismos ectotérmicos e dependem da temperatura, umidade e água para seu desenvolvimento, reprodução e sobrevivência, segundo o médico sanitarista Álvaro Madeira Neto.
Condições favoráveis ao Aedes aegypti e a propagação das arboviroses
O mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya, encontra no aumento das temperaturas e nas mudanças no padrão de chuvas condições ideais para sua reprodução. O Ministério da Saúde destaca essas alterações climáticas como fatores que ampliam a circulação do mosquito pelo território nacional.
Segundo a pesquisadora Marielena Vogel Saivish, temperaturas mais elevadas aceleram o ciclo de vida do mosquito, encurtando o tempo entre posturas de ovos e aumentando a frequência de alimentação, o que eleva o potencial de transmissão dos vírus. Além disso, o período de incubação extrínseca do vírus dentro do mosquito diminui com o calor, permitindo que mais mosquitos atinjam a capacidade de transmitir a doença durante sua vida.
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Fonte: bh24.com.br
Diferenças regionais no impacto das mudanças climáticas
O efeito do clima sobre a circulação de vírus varia conforme as características de cada região do Brasil. Na Amazônia, a combinação de floresta, biodiversidade, rios e desmatamento intensifica o contato entre humanos, vetores e vírus silvestres, aumentando o risco de transmissão de arboviroses como oropouche e mayaro, explica o infectologista Fernando Silveira.
No Nordeste, o calor e a irregularidade das chuvas influenciam a presença de mosquitos, sobretudo em áreas urbanas e semiáridas onde o armazenamento de água se torna necessário durante períodos de seca, criando ambientes propícios para a reprodução do Aedes aegypti.
O Centro-Oeste apresenta uma mistura de altas temperaturas, áreas urbanas e rurais, e circulação de pessoas e animais que favorece a disseminação de vírus e o funcionamento da região como corredor para a transmissão entre diferentes ambientes ecológicos.
Nas regiões Sul e Sudeste, o aumento das temperaturas amplia a janela de atividade dos vetores, permitindo que eles atuem por mais tempo em áreas que antes possuíam condições menos favoráveis, o que pode acelerar a disseminação dos vírus em locais de alta densidade populacional.
Como os vírus se espalham para novas áreas
A chegada de vírus a novas regiões pode ocorrer por meio de pessoas infectadas que viajam, animais que transportam agentes infecciosos e a expansão natural dos vetores. Porém, a transmissão só se mantém se o ambiente oferecer condições adequadas para o ciclo do vírus, como a presença do vetor, clima favorável e contato suficiente entre vetor, hospedeiro e população.
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Fatores como chuvas que geram água parada e períodos quentes que aceleram o desenvolvimento dos mosquitos aumentam o risco de transmissão. Já episódios de seca podem levar ao armazenamento doméstico de água, criando novos criadouros. Eventos extremos, como enchentes, também influenciam ao provocar deslocamentos e comprometer saneamento, elevando a exposição a agentes infecciosos.
Interação entre clima, urbanização e saneamento
O risco epidemiológico não depende apenas do clima. Urbanização acelerada, ocupação desordenada, falta de saneamento básico e desmatamento trabalham em conjunto com as alterações climáticas para facilitar a disseminação das doenças. A pesquisadora Marielena Saivish destaca que esses fatores não devem ser vistos isoladamente, mas como uma rede que resulta em epidemias.
Desafios futuros para a saúde pública
O principal desafio para os próximos anos é a combinação de fatores que pode permitir que vírus já conhecidos se estabeleçam em novas áreas ou permaneçam ativos por períodos mais longos. Isso pode levar a comportamentos imprevisíveis das doenças e à expansão de vírus antes restritos a determinadas regiões.
As mudanças na sazonalidade, como na dengue, podem alterar a duração e intensidade dos períodos de maior transmissão. A presença simultânea de vários arbovírus também complica o diagnóstico e aumenta a pressão sobre os serviços de saúde, conforme alerta Saivish.
Quando um vírus atinge uma população com pouca imunidade, mesmo casos leves podem levar a grande procura por atendimento, sobrecarregando unidades básicas, pronto-socorros, laboratórios e hospitais. Essa realidade reforça a necessidade de estratégias integradas que considerem clima, ambiente e aspectos sociais para a prevenção e controle eficaz das arboviroses no Brasil.

