Calor das Águas na Praia do Laboratório
Localizada a aproximadamente 43 km do centro de Angra dos Reis, no litoral sul do Rio de Janeiro, a Praia do Laboratório atrai a atenção dos visitantes devido à sua proximidade com as usinas nucleares Angra 1 e 2. Essa localização única resulta em uma característica bastante peculiar: as águas do mar nesse trecho são visivelmente mais quentes do que nas praias vizinhas da famosa Costa Verde.
Conhecida como Praia do Laboratório, essa pequena faixa de areia próxima ao complexo administrado pela Eletronuclear tem despertado o interesse de muitos turistas. A temperatura elevada da água contrasta com o padrão mais frio das demais praias da região, tornando a visita ainda mais atrativa.
Como as Usinas Nucleares Aquece a Praia
As usinas de Angra são as únicas nucleares em funcionamento no Brasil, com a missão de produzir energia elétrica a partir da fissão do urânio, um processo que gera uma quantidade significativa de calor. Esse calor é convertido em energia e posteriormente distribuído ao Sistema Interligado Nacional, atendendo milhões de consumidores, especialmente no Sudeste do país.
O aquecimento das águas na Praia do Laboratório está diretamente relacionado ao sistema de resfriamento das usinas, que utiliza água do mar para dissipar o calor gerado durante a produção de energia. De acordo com informações da Eletronuclear, a água devolvida ao oceano pode chegar a temperaturas entre 38 °C e 39 °C durante o verão, quando a temperatura natural do mar já é elevada.
O professor Aquilino Senra, do Programa de Engenharia Nuclear da Coppe/UFRJ, explica que esse aumento térmico não é uniforme em toda a praia. “A água não aquece toda a região por igual. Forma-se uma pluma de água mais quente que se dispersa à medida que se mistura com o mar”, comenta. Em média, a temperatura da água na praia pode aumentar entre 2 °C e 5 °C, com alguns pontos apresentando temperaturas ainda mais elevadas próximas ao local de descarga dos efluentes térmicos.
Segurança e Monitoramento Ambiental
Senra salienta que não há risco de contaminação radioativa. “A água do mar não entra em contato com material radioativo. Os sistemas de resfriamento são isolados, garantindo que a radioatividade não chegue ao mar”, afirma. O impacto ambiental associado a esse processo é, portanto, de natureza térmica.
O modelo utilizado em Angra é comum em usinas nucleares ao redor do mundo. Segundo o professor, existem mais de 400 usinas em operação que empregam sistemas semelhantes. Em locais que não têm acesso ao mar, o calor é dissipado através de torres de resfriamento, que liberam vapor na atmosfera.
A Eletronuclear afirma que desde 1978 mantém um rigoroso programa de monitoramento ambiental focado na descarga térmica, conduzido pelo Laboratório de Monitoração Ambiental (LMA). O acompanhamento abrange medições quinzenais em pontos específicos, monitoramento diário no verão e um sistema online que registra em tempo real a temperatura da água durante a captação, na saída dos efluentes e no limite da chamada zona de mistura. Os dados são reportados regularmente a instituições como o Ibama e a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN).
De acordo com a empresa, a alteração térmica por si só não representa um impacto ambiental significativo, sendo que os principais efeitos observados na biota marinha da região estão relacionados ao aquecimento global, um fenômeno que afeta de forma mais ampla o litoral fluminense.
Acesso e Experiência na Praia do Laboratório
A Praia do Laboratório é de acesso livre, embora o caminho até lá não seja bem sinalizado. Para chegar à praia, é necessário seguir pela rodovia Rio-Santos em direção às usinas Angra 1 e 2, adentrando na Estrada do Laboratório, cuja entrada possui fiscalização. Visitantes frequentemente recomendam o uso de GPS para encontrar o acesso, já que não existem placas indicativas.
Mariana Lopes, uma administradora de 34 anos da capital fluminense, compartilha sua experiência: “Eu conheci a praia depois de ver vídeos nas redes sociais. Tinha curiosidade, mas também receio por causa das usinas. Após pesquisar, percebi que não havia motivo para preocupação e decidi ir. É um paraíso: a praia é pequena, cercada de verde, com água cristalina e quentinha. Foi uma surpresa extremamente positiva.”
Para Senra, a apreensão em torno da energia nuclear está mais ligada à percepção pública do que a riscos reais. “O medo geralmente surge da falta de informação. Quem entende como o sistema funciona tem ciência de que não há contaminação e que o controle ambiental é contínuo”, conclui.

