Desafios Persistentes no Combate ao Estigma do HIV
Apesar dos significativos avanços no diagnóstico e tratamento do HIV no Brasil, o estigma continua sendo uma barreira devastadora na vida daqueles que convivem com o vírus. O Índice de Estigma 2025, divulgado em 8 de maio, revela que mais da metade das pessoas vivendo com HIV no país já enfrentaram discriminação em razão do seu status sorológico. O estudo, realizado por um consórcio de redes que incluem o MNCP e a RNP+, com apoio do Unaids e do Ministério da Saúde, analisou as experiências de 1.275 indivíduos em sete capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Recife, Brasília e Manaus. Os dados atualizados mostram uma triste realidade: mais da metade dos entrevistados ainda convive com o medo, a vergonha e a discriminação decorrentes do HIV.
Embora um avanço positivo tenha sido identificado — com uma diminuição de cerca de 11 pontos percentuais no índice de discriminação — o estudo evidencia que o estigma e as violações de direitos humanos persistem, afetando diretamente a saúde e a qualidade de vida dessa população. A percepção de discriminação é alarmante: 52,9% relataram já ter enfrentado algum tipo de preconceito, enquanto 34,8% admitiram sofrer discriminação dentro de suas próprias famílias.
Impactos Diretos na Saúde Mental e no Acesso ao Tratamento
As consequências do estigma são mais do que emocionais. Os dados revelam um impacto direto na saúde mental: 29,1% dos entrevistados apresentaram sintomas de depressão e 41,2% relataram ansiedade em decorrência do estigma. Um depoimento comovente de um homem de 32 anos, afetado pelo preconceito no trabalho, exemplifica essa realidade: “Senti-me sem chão depois de ser exposto em um grupo de mensagens. O estigma não só prejudica minha vida pessoal, mas também minha saúde em geral.”
Além disso, a adesão ao tratamento está ameaçada. Apesar de o Brasil ter alcançado duas das metas globais 95-95-95, com 96% das pessoas diagnosticadas e 95% com carga viral suprimida, apenas 82% dos diagnosticados estão em tratamento. A pesquisa aponta o estigma como a principal barreira para essa lacuna, evidenciando que o medo de discriminação durante a busca por cuidados de saúde tem desestimulado muitos a buscar apoio. Uma pessoa não-binária de 31 anos descreveu a situação: “Fui desencorajada pelo meu médico, que insinuou que eu tinha HIV porque ‘estava procurando’. Se eu não tivesse certeza de que queria cuidar da minha saúde, nunca mais tinha voltado ao consultório.”
Um Chamado Urgente para Enfrentar o Estigma
A urgência em lidar com o estigma foi enfatizada por militantes e representantes de órgãos governamentais durante o lançamento do Índice de Estigma 2025. O evento foi repleto de emoção, com apelos por políticas públicas eficazes que priorizem o enfrentamento do estigma como questão central. “A discriminação não só afasta pessoas dos cuidados, mas também fere seus direitos humanos e gera sofrimento desnecessário”, reforçou Andrea Boccardi, representante do Unaids Brasil.
As formas de discriminação são variadas e muitas vezes invisíveis, incluindo especulação sobre o estado sorológico e violação do sigilo. A pesquisa destaca que 46,1% dos respondentes não confiam em que o sigilo sobre sua condição seja respeitado, enquanto 13,1% relataram ter enfrentado discriminação nos serviços de saúde no último ano. Um relato de uma mulher de 63 anos, que foi rejeitada por um parceiro ao revelar sua sorologia, ilustra essa triste realidade.
Mudanças Necessárias Para um Futuro Sem Estigma
O Índice de Estigma 2025 também traz dados sobre o impacto das crises climáticas e da pandemia de Covid-19 no acesso à saúde, revelando que 82,1% das pessoas ainda não recuperaram sua renda familiar após eventos climáticos extremos, enquanto 20,5% enfrentaram dificuldades para obter medicamentos. “Enfrentar o estigma é uma questão de direitos humanos. Precisamos garantir que todos tenham acesso a cuidados de saúde de qualidade, sem medo ou discriminação”, enfatizou Kenarik Boujikian, da Secretaria Nacional de Diálogos Sociais e Articulação de Políticas Públicas.
Por fim, a luta contra o estigma deve ser uma prioridade nas políticas públicas, como enfatizou a representante dos movimentos sociais, Silvia Aloia: “É necessário transformar essa realidade. Precisamos sensibilizar e conscientizar a sociedade sobre as consequências que o estigma traz para a vida das pessoas que vivem com HIV. Somente assim, poderemos construir um futuro mais inclusivo e justo.”

