Mudanças Estratégicas do PT
Nos últimos dias, as declarações do governo, do PT e de diversas lideranças políticas se concentraram, mais do que nunca, na condenação dos ataques desferidos contra a Venezuela, evitando uma defesa explícita do regime de Nicolás Maduro. Como reportado pelo GLOBO, houve uma decisão clara de enfatizar a soberania nacional, um argumento que já se mostrou eficaz em momentos passados, como durante o tariff war promovido pelos Estados Unidos contra o Brasil. Segundo um assessor próximo ao presidente Lula, não haverá espaço para uma defesa do governo venezuelano nesse momento, uma precaução para evitar críticas que podem se intensificar ao longo da próxima campanha eleitoral.
— O conceito de soberania une a população, vai além da esquerda. É uma estratégia que Lula parece adotar contra qualquer forma de ataque, sem entrar nas questões específicas da Venezuela — analisa o cientista político Josué Medeiros, professor da UFRJ.
Levantamento de Opinião Pública
Uma pesquisa da consultoria Ativaweb sobre a repercussão das ações americanas revelou que a maioria das menções nas redes sociais sobre a prisão de Maduro é positiva. No Brasil, foram contabilizadas aproximadamente 2,7 milhões de menções a esse assunto, sendo que 56% delas expressaram apoio à prisão, em contraste com 28% que se opuseram — resultados que podem variar para 62% a favor e 20% contra, dependendo da margem de erro da pesquisa. Os dados indicam também que 16% das postagens foram consideradas neutras. Apesar desse termômetro nas redes sociais, ainda não existe uma pesquisa formal que avalie o sentimento da população brasileira sobre o tema.
Reação da Oposição e Ações Judiciais
A estratégia do PT surge em um contexto de crescente oposição que utiliza o tema para criticar o governo Lula e o próprio partido. Recentemente, o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (PSD), referiu-se ao PT como um partido “narcoafetivo” ao comentar a operação dos EUA. O deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) também publicou um vídeo que relaciona o PT ao narcotráfico, resultando em uma ação judicial do partido por danos morais.
Além disso, representantes do PSOL acionaram a Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que sugeriu a captura de Lula pelos EUA nas redes sociais. Para os representantes do PSOL, essa sugestão atenta contra a soberania e a integridade das instituições democráticas brasileiras, após Ferreira ter compartilhado uma montagem onde Lula aparece sendo preso por agentes americanos, imitando uma imagem da detenção de Maduro.
Histórico de Apoio a Maduro
Imagens antigas de Lula também ressurgiram, incluindo um vídeo de 2013, quando o então presidente manifestou apoio à candidatura de Maduro, que sucedeu Hugo Chávez, parceiro político de longa data de Lula. Na gravação, Lula declarou: “Maduro presidente é a Venezuela que Chávez sonhou.” Àquela época, as alegações de fraudes eleitorais na Venezuela eram minimizadas. Contudo, após a ascensão do governo Maduro, as acusações de manipulação e cerceamento da oposição se tornaram mais contundentes.
A partir de 2014, adversários políticos do PT passaram a criticar o que consideravam uma postura passiva do Planalto diante dos eventos na Venezuela, um ponto que foi amplamente explorado, especialmente em momentos eleitorais. A defesa de Lula a Maduro, em diversas ocasiões, foi variada. Em 2017, por exemplo, ele destacou a necessidade de diálogo ao referir-se a ameaças de intervenção militar por parte de Donald Trump.
Controvérsias Recentes
O ápice das controvérsias ocorreu em 2023, quando Lula recebeu Maduro no Palácio do Planalto, gerando críticas não apenas da oposição, mas também de aliados regionais, como o chileno Gabriel Boric. A recepção foi vista como um sinal de apoio ao regime venezuelano, que estava sob fogo cruzado por denúncias de autoritarismo e manipulação eleitoral.
Desde julho de 2024, a situação se complicou ainda mais, com Maduro conquistando um novo mandato que foi amplamente contestado pela comunidade internacional e descumprindo acordos de transparência no processo eleitoral. Segundo Josué Medeiros, para Lula essa quebra de acordo foi um ato grave, que deteriorou ainda mais a relação entre Brasil e Venezuela.
Desafios Futuros para a Esquerda
A situação política no Brasil e as críticas em torno da Venezuela também impactaram as eleições municipais. Durante sua campanha, Guilherme Boulos (PSOL), que atualmente é ministro da Secretaria-Geral da Presidência, buscou distanciar-se do apoio anterior ao regime de Maduro, afirmando: “Um regime que persegue opositores, um regime que faz eleições sem transparência, para mim, não é democrático.” Essa mudança de postura reflete uma tentativa de afastar-se do histórico de defesas do chavismo que se tornaram um ponto frágil no discurso da esquerda.
Ao longo dos anos, o PT e a esquerda em geral enfrentaram um dilema constante em relação à Venezuela. Depois das eleições de 2020, o partido elogiou o pleito venezuelano como uma “grande manifestação da vontade popular”. Porém, com as constantes acusações de fraudes e violações de direitos humanos na Venezuela, a narrativa começou a mudar, evidenciando a dificuldade da esquerda em lidar com a relação com o chavismo diante das pressões internas e externas.

