A Crise Salarial dos Educadores Fluminenses
Em plena temporada de férias escolares, uma realidade alarmante se impõe aos docentes do ensino básico público do Estado do Rio de Janeiro. Com a entrada em vigor do novo salário mínimo nacional de R$ 1.621,00, os professores fluminenses, que recebem apenas R$ 1.588,41, se veem oficialmente abaixo do mínimo legal estabelecido pelo Governo Federal.
Este não é um mero exagero retórico, mas uma realidade palpável e verificável. O que se observa é que o vencimento-base dos professores da rede estadual do Rio de Janeiro não atende nem mesmo ao valor mínimo necessário para a sobrevivência digna do trabalhador brasileiro.
O que ocorreu com os salários não é um ato isolado do governo estadual, mas sim uma consequência direta da decisão tomada em Brasília. O reajuste no salário mínimo escancarou a realidade da desvalorização salarial que os docentes têm enfrentado ao longo dos anos, sem qualquer possibilidade de maquiagem.
Apesar da gravidade da situação, o governo estadual permanece inerte. Até o momento, nenhuma medida foi tomada para corrigir ou recompôr essa estrutura salarial que vem sendo corroída não só pela inflação e aumento do custo de vida, mas também por uma política explícita de desvalorização da profissão docente.
Uma Escolha Política Que Afeta a Educação
É importante ressaltar que essa situação não é resultado de um simples erro administrativo ou de um descuido técnico. Trata-se de uma escolha política que foi reiteradamente feita por diferentes gestões estaduais, sendo aprofundada pela atual administração. Quando um educador passa a receber menos que o salário mínimo, isso transmite uma mensagem grave: que a profissão de ensinar é considerada menos importante do que a sobrevivência básica.
O governo de Cláudio Castro merece ser mencionado, pois governos não são entidades abstratas. Eles têm rostos, projetos e prioridades bem definidas. E, infelizmente, a educação pública não é uma dessas prioridades. A ausência de políticas efetivas para valorização da carreira docente e a falta de um plano estruturado de carreira são evidências claras dessa negligência.
Lembrando que o piso salarial dos professores não deve ser visto como um teto, mas sim como uma referência mínima. Contudo, o Estado tem se restringido a cumpri-lo apenas formalmente, utilizando abonos e artifícios contábeis que não repercutem no vencimento-base ou na aposentadoria dos docentes. Esses mecanismos visam apenas simular um cumprimento legal, enquanto esvaziam o verdadeiro sentido de valorização profissional.
As Consequências de Salários Abaixo do Mínimo
O resultado dessa política é devastador: uma carreira sem atratividade, perspectivas ou dignidade. É um convite constante à evasão docente e ao adoecimento emocional, levando a uma crise na retenção de profissionais nas salas de aula. Estamos nos aproximando de um verdadeiro apagão da profissão docente.
Uma sociedade que se considere civilizada não pode tratar seus educadores dessa forma. Quando os professores são empurrados à pobreza, todas as instituições escolares sofrem as consequências. A retórica oficial pode afirmar que a educação é prioridade, mas sem que isso se reflita em orçamentos adequados, salários dignos e na valorização da carreira, trata-se apenas de propaganda vazia.
No Rio de Janeiro, essa contradição é ainda mais evidente. Enquanto os educadores lutam para sobreviver, o governo estadual continua a conceder isenções fiscais e renegociar dívidas, protegendo interesses que não incluem a escola pública.
A Educação em Debate: Um Direito ou um Privilégio?
O salário dos professores não é um detalhe administrativo qualquer; ele simboliza o lugar que a educação ocupa no projeto de Estado. Atualmente, essa posição é marginalizada, e o significado da educação pública está em questão: que tipo de educação podemos esperar se seus profissionais são mal remunerados?
Receber menos que um salário mínimo vai além do problema financeiro; é uma violência simbólica que desvaloriza o trabalho intelectual e pedagógico. Essa realidade não atinge apenas os professores, mas também impacta estudantes, famílias e comunidades inteiras, comprometendo a qualidade do ensino e o futuro do estado.
Sem a valorização adequada dos professores, a escola pública não se fortalece, comprometendo o desenvolvimento social e a cidadania. A tentativa de naturalizar essa situação revela um plano de sociedade desigual, onde a educação de qualidade é um privilégio para poucos.
Por isso, é essencial trazer essa pauta à tona no debate público, não como um favor corporativo, mas como uma questão estrutural, social e política. A luta pela recomposição salarial e por uma carreira digna representa a própria existência da escola pública. Não se trata apenas de um aumento, mas de uma reparação mínima do que foi retirado ao longo do tempo.
A Necessidade de Ação Coletiva
É fundamental exigir transparência orçamentária e um comprometimento político real. A sociedade civil, juntamente com movimentos, entidades e instituições, deve se unir para exigir ações concretas. O Legislativo estadual não pode se dar ao luxo de ignorar essa realidade, e a sociedade não pode aceitar que o futuro da educação seja tratado como um assunto secundário.
Valorização não é apenas um discurso emocionante em datas comemorativas, mas sim a garantia de salários justos, carreiras estruturadas e um respeito cotidiano por parte das instituições. Enquanto os professores continuarem a ser vistos como um custo, e não como um investimento, o Rio de Janeiro e o Brasil como um todo aprofundarão seu atraso social.
Com a elevação do salário mínimo, o contraste com o salário dos professores se torna ainda mais evidente. Essa situação não é acidental, mas pedagógica: revela cruelmente o valor que se atribui àqueles que educam. Em 2026, precisamos encarar essa realidade de forma clara. É uma questão de decência que os educadores recebam pelo menos o salário mínimo. Se o governo estadual continuar a ignorar esse limite civilizatório, será papel da sociedade cobrar essa mudança. Afinal, precarizar o professor é, na verdade, precarizar o futuro.

