A Disputa Geopolítica pelo Petróleo
A crescente tensão entre Estados Unidos e China na América do Sul reflete uma luta de poder que envolve não apenas questões econômicas, mas também estratégicas. O ex-presidente Donald Trump deixou claro que o controle sobre o petróleo, a commodity mais vital do planeta, é uma das principais motivações por trás de sua intervenção militar na Venezuela. O país, que abriga a maior reserva de petróleo do mundo, se tornou um foco de interesse para Washington, que busca reforçar a presença de suas petroleiras na região e conter o avanço das empresas chinesas.
Dados recentes indicam um aumento significativo nas compras de petróleo sul-americano pela China, que está se transformando de uma simples cliente para um investidor estratégico na América do Sul. Essa transição é vista por muitos especialistas como parte de um movimento mais amplo que envolve tanto a exploração de novas reservas quanto a formação de parcerias com empresas locais.
Impacto Econômico da Rivalidade EUA-China
As duas maiores economias do mundo são responsáveis por cerca de 35% do consumo global de petróleo, conforme aponta a Agência Internacional de Energia. Portanto, o que está em jogo vai além do que acontece na Venezuela, repercutindo em toda a dinâmica econômica da região. A estratégia de Trump visa, segundo analistas, reposicionar os EUA como o principal jogador na geopolítica energética da América do Sul, especialmente em países como Brasil, Guiana, Suriname e Argentina, que estão abrindo novas fronteiras para a exploração de petróleo.
Desde a década de 2010, a presença de empresas chinesas na região tem crescido. Essas companhias não só atuam no setor de petróleo, mas também se expandem para outras áreas como energia renovável e mineração, fazendo com que os investimentos chineses sejam muitas vezes subestimados. Pesquisas da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) revelaram que, entre 2020 e 2024, investimentos em óleo e gás na região somaram cerca de US$ 47,5 bilhões, com apenas US$ 1,3 bilhão provenientes da China.
O Caminho para a Dominação Energética
Marcelo de Assis, da consultoria MA2Energy, afirma que a ofensiva de Trump não deve eliminar a presença chinesa no mercado sul-americano. A China continua a ver o petróleo sul-americano, especialmente da Venezuela, como um recurso vital. O fornecimento de até 450 mil barris diários pode ser facilmente compensado por outras fontes, mas essa dinâmica cria um cenário de incerteza que pode afetar a estratégia global da China em relação à sua dependência energética.
Enquanto isso, o diretor de Conteúdo do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), Tulio Cariello, destaca que a China é o principal comprador de petróleo do Brasil, responsável por quase 60% das exportações brasileiras. Isso mostra que, independentemente das tensões políticas, o relacionamento comercial entre Brasil e China é forte e tende a se intensificar enquanto houver oportunidades no mercado.
Transformações no Setor Energético
Historicamente, até os anos 2000, as empresas europeias e americanas dominavam a exploração de petróleo na América do Sul. No entanto, a mudança começou a se acentuar nos anos 2010, quando os EUA passaram a focar no gás de xisto, abrindo espaço para as estatais chinesas. A China, com suas petroleiras como CNOOC, CNPC e Sinopec, já representa 6,2% da produção total de petróleo no Brasil, um crescimento considerável em comparação com as empresas americanas, que estão concentradas em campos ainda em fase de exploração.
Perspectivas Futuras
A atual estratégia de Trump é vista como uma tentativa de repor a influência americana na energia da América Latina, especialmente com a previsão de que os preços do petróleo possam cair para US$ 50 por barril. Isso poderia gerar uma disputa ainda mais acirrada entre as empresas americanas e chinesas, à medida que ambos os países buscam aumentar sua presença no setor.
A advogada de energia Irini Tsouroutsoglou destaca os riscos políticos envolvidos nesse cenário, pois a Venezuela precisaria de investimentos significativos para recuperar sua capacidade de produção. Enquanto isso, a China continua buscando diversificar seus investimentos na região, o que demonstra que a luta pelo controle do petróleo sul-americano está longe de terminar.

