Desafios do Turismo de Massa no Brasil
Recentes incidentes de desordem e superlotação nas praias do Brasil têm levantado um alerta sobre os riscos associados ao turismo de massa. Após um tumulto em Porto de Galinhas, a prefeitura de Ipojuca, em Pernambuco, implementou medidas rigorosas, incluindo a proibição de consumação mínima nas areias. Outras cidades, como Niterói (RJ) e locais de Florianópolis (SC), também estão se adaptando. Em Niterói, o aluguel de barracas na praia foi fixado em R$ 22,85, enquanto a fiscalização em lugares como Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP) foi intensificada para conter abusos.
Além das novas regras comerciais, a administração de visitas em áreas de proteção ambiental tem se tornado uma preocupação crescente. Jericoacoara (CE), Ilha Grande (RJ) e Morro de São Paulo (BA) já enfrentam desafios legais em função da cobrança de taxas de entrada. Nos Lençóis Maranhenses (MA), agora reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, as autoridades discutem a limitação diária de visitantes para preservar a beleza do local.
Exemplos Internacionais de Controle de Visitantes
Essa questão do controle de turismo não é exclusiva do Brasil — diversas nações já aplicam limitações para proteger seus destinos turísticos. O Monte Fuji, no Japão, e Machu Picchu, no Peru, reduziram o número de visitantes diários. Veneza, na Itália, e Mallorca, na Espanha, também impuseram restrições e taxas para conter o fluxo excessivo de turistas.
No ano passado, o Brasil registrou um total de 9.287.196 visitantes internacionais, um recorde que superou em 37% o total de 2024. Os argentinos se destacaram como os maiores visitantes, seguidos por chilenos, norte-americanos, paraguaios e uruguaios.
Além dos estrangeiros, os brasileiros também estão redescobrindo as maravilhas do turismo nacional. Ana Carla Lopes, secretária-executiva do Ministério do Turismo, enfatizou a importância de implementar uma “política integrada” entre os setores público e privado e a sociedade civil para garantir um crescimento sustentável do turismo, essencial para a economia. Cada localidade deve ser respeitada em suas peculiaridades, afirma ela.
“É essencial avaliar se será cobrada uma taxa de visitação e se haverá descontos para moradores locais. Esses aspectos são parte de uma política integrada”, destaca Lopes, que ressalta a necessidade de discutir a viabilidade das taxas, especialmente em destinos vulneráveis ao crescimento do turismo.
O Caso de Porto de Galinhas
A situação em Porto de Galinhas, que resultou no indiciamento de 14 pessoas pela Polícia Civil, reflete a crescente insatisfação dos moradores com a invasão desordenada de turistas. O município recebeu 1,2 milhão de visitantes em 2025, um aumento significativo em comparação aos 937 mil de 2019. Essa expansão trouxe não apenas benefícios econômicos, fazendo de Ipojuca o terceiro maior PIB de Pernambuco, mas também problemas sérios, como a falta de infraestrutura e saneamento.
O destino turístico, que começou como uma vila de pescadores nos anos 1970, passou a ser alvo de crescimento desordenado, como notado pelo urbanista Zeca Brandão. Em um estudo feito pela Universidade Federal de Pernambuco, em 2005, foi identificado que o aumento populacional de Ipojuca, que atualmente conta com 106 mil habitantes, havia exacerbado problemas antigos, como engarrafamentos e falta de serviços básicos.
Crescimento e Sustentabilidade em Santo Amaro
O italiano Matteo Soussinr é um dos que presenciou a rápida transformação de Santo Amaro, nos Lençóis Maranhenses, onde abriu uma pousada focada no turismo sustentável. Desde 2013, quando se estabeleceu na região, ele notou um aumento exponencial de visitantes, especialmente na alta temporada. Em 2021, o município recebeu 61 mil turistas, número que saltou para 297 mil no ano seguinte.
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que viu suas visitas crescerem 191% desde a pandemia, está analisando o impacto desse fluxo sobre a biodiversidade e o ecossistema local. Atualmente, existe uma taxa de R$ 10 para estadias de três dias, além de impostos sobre passeios turísticos.
“O crescimento econômico é evidente, mas precisamos entender a capacidade de visitação para evitar danos ao meio ambiente”, afirma Soussinr, alertando que Barreirinhas, a maior cidade da região, enfrenta problemas sérios relacionados à falta de planejamento. A especulação imobiliária e a geração de lixo se tornaram obstáculos significativos.
A Necessidade de Políticas Públicas Eficientes
A pesquisadora Mariana Aldrigui, da USP, destaca que as políticas públicas brasileiras ainda são superficiais, focando mais na divulgação dos destinos do que no planejamento real. “Agimos de forma reativa, lidando com os problemas apenas após surgirem. A massificação do turismo se revela gradualmente, e precisamos de um debate mais profundo com as comunidades locais”, defende Aldrigui.
Em 2024, os Parques Nacionais do Brasil bateram recorde de visitas, com 12,4 milhões de entradas. O ICMBio, que gerencia esses espaços, reconhece que o turismo de massa é uma realidade e busca melhorar a infraestrutura sem comprometer a biodiversidade. O Ministério do Turismo também está comprometido em promover um turismo responsável, diversificando as ofertas e evitando a superlotação em certos locais.

