Transformando Vidas Através da Música
Chiquinha Gonzaga, uma das figuras mais emblemáticas da música brasileira, deixou um legado que vai muito além de suas composições. Compositora, multi-instrumentista e uma verdadeira revolucionária no início do século XX, Gonzaga foi uma das primeiras a levar ritmos populares aos salões da elite carioca, desafiando as normas sociais da época. Mais de um século após sua contribuição marcante, suas ações continuam a inspirar novas gerações, especialmente meninas que sonham em se tornar artistas.
No coração do Rio de Janeiro, a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga surge como uma luz na vida de jovens meninas, muitas delas em situação de vulnerabilidade. Com quase cinco anos de existência, o projeto foi criado para empoderar e transformar a realidade de suas integrantes, oferecendo oportunidades que antes pareciam inalcançáveis.
Essas jovens, conhecidas como “Chiquinhas”, já levaram sua música a palcos internacionais, incluindo apresentações na França, Suíça e Portugal, e, mais recentemente, foram aplaudidas em uma performance lotada no prestigiado Carnegie Hall, em Nova York.
Empoderamento Através da Música
Moana Martins, diretora-executiva da orquestra, explica que a iniciativa começou em resposta à escassez de meninas em orquestras. “Nós conhecemos a realidade delas e proporcionamos a chance de sonharem alto. Elas aprendem, se desenvolvem e ensinam. Com nosso apoio, sonham com a faculdade e com audições internacionais”, comenta.
Com um histórico de formação em Etnomusicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e experiência em gestão cultural, Moana se conecta profundamente com as histórias das meninas. Ela própria enfrentou barreiras sociais que quase a fizeram desistir de seus sonhos. “Fui ensinada a acreditar que, para ter sucesso na música, era preciso ser ‘doutora’. Hoje, compreendo que uma oportunidade pode qualificar a todos”, reflete.
O Caminho das Chiquinhas
Atualmente, o projeto atende cerca de mil alunos, com cinquenta delas integrando a orquestra principal. A demanda aumentou consideravelmente desde o início, levando à implementação de um rigoroso processo seletivo. “Estamos constantemente formando novas artistas, mas não podemos atender todos os cinco mil estudantes que se inscrevem”, diz Moana.
Com 14 pólos de formação no Rio de Janeiro, a metodologia do projeto é dividida em três níveis de aprendizado. O primeiro ensina os instrumentos de corda, percussão e teclado. Após a formação, as alunas têm a oportunidade de se apresentar com a Orquestra, regida pela maestra Priscila Bomfim. Com o tempo, elas se tornam professoras, contribuindo para o ciclo de formação de novas colegas.
Além do desenvolvimento técnico, a troca de experiências pessoais entre as meninas cria uma rede de apoio. “A força do coletivo e o suporte mútuo são fundamentais para o crescimento pessoal e das relações interpessoais. É um espaço de construção integral”, destaca Moana.
Desafios e Superações
O projeto é apoiado por recursos da Lei Rouanet e doações de empresas do setor de petróleo, gás e bancos. “Apresentar o projeto às empresas é um desafio. Temos pouco tempo para explicar sua importância. Não se trata apenas de um concerto; as meninas precisam de uniformes, instrumentos de qualidade e bolsas para continuar seus estudos”, explica.
Nathaly Joy, flautista de 21 anos e integrante da orquestra, narra sua trajetória desde que foi selecionada. “No início, pensei que a música era algo temporário, mas me apaixonei. A Chiquinha Gonzaga me deu a oportunidade de crescer como artista”, conta. Hoje, ela já se apresentou como solista e foi reconhecida em palcos ao redor do mundo.
As barreiras enfrentadas pelas meninas vão além da distância. Nathaly menciona que, no cenário musical, a dedicação delas é dobrada, especialmente por serem mulheres. “A orquestra nos proporciona a chance de mostrar nosso potencial. Mas é uma realidade desafiadora; precisamos estudar mais e nos dedicar para sermos competitivas”, analisa.
Um Sonho de Espaço Próprio
Após diversas apresentações em locais renomados, a Orquestra Chiquinha Gonzaga almeja um espaço próprio. Atualmente, ensaiam no oitavo andar da estação Central do Brasil, cedido até 2025. Para 2026, está previsto o Centro Cultural Chiquinha Gonzaga, que não será apenas um local de ensaio, mas um espaço educacional e informativo sobre a história de mulheres na música.
O espaço, que ficará localizado próximo à Lapa, onde Chiquinha Gonzaga viveu, reforça a conexão com a memória e cultura da cidade. “Estamos em busca de incentivos para as reformas necessárias, incluindo salas com isolamento acústico e um ambiente acolhedor para receber as meninas”, diz Moana.
A orquestra é um símbolo de esperança e um catalisador para as meninas que sonham com uma carreira na música. “Queremos ser mais do que um grupo musical; desejamos ser um lar onde os sonhos se multiplicam”, conclui Moana.

