Divergências internas no PT emergem após nova presidência da estatal Nuclep
A recente nomeação de Adeilson Ribeiro Telles para a presidência da Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep) trouxe à tona uma nova onda de atritos no diretório do PT no estado do Rio de Janeiro. A decisão, ocorrida em dezembro, gerou críticas por parte de Washington Quaquá, vice-presidente nacional do partido e prefeito de Maricá. Quaquá argumenta que a escolha de Telles foi realizada sem a devida consulta ao ministro Alexandre Silveira (PSD), responsável pela pasta do Ministério de Minas e Energia. Por outro lado, alguns dirigentes petistas ouvidos pela reportagem afirmam que a escolha foi, de fato, uma decisão de Silveira.
De acordo com o prefeito, a indicação de Telles foi impulsionada por um pedido da ala fluminense do PT, que é alinhada a Lindbergh Farias, líder do partido na Câmara, e André Ceciliano, secretário de Assuntos Parlamentares do governo. Quaquá expressou preocupações em relação à nomeação, citando a prisão de Telles em 2018, no contexto da Operação Rizoma da Polícia Federal, que apurou desvios de recursos de fundos de pensão. Ele teme que essa associação possa prejudicar a imagem do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente em meio à corrida eleitoral de 2026.
“É fundamental ter cautela nas nomeações e ouvir aqueles que sustentam o PT e o governo Lula nos estados. A articulação política atualmente parece ser dominada por Lindbergh e Ceciliano, que estão indicando pessoas para cargos que podem causar complicações para o governo”, criticou Quaquá. Ele reforçou que, apesar de não ocupar qualquer cargo no governo, está disposto a defender o presidente e o partido.
A controvérsia se intensifica ainda mais, considerando que o cargo de Ceciliano está interligado à pasta da ministra Gleisi Hoffmann. Aliados de Lindbergh defendem que a escolha de Telles é justificada, uma vez que ele já desempenhava um papel na Nuclep, onde ingressou em 2023 e, desde maio de 2024, ocupava a função de Gerente-Geral da Presidência.
Petistas que preferem manter a confidencialidade afirmam que a decisão de nomear Telles partiu do próprio Silveira e foi uma escolha consensual dentro do PT fluminense, com exceção da oposição levantada por Quaquá.
Telles foi detido em abril de 2018 durante uma operação derivada da Lava-Jato, que investigou fraudes em fundos de pensão e resultou em cerca de R$ 20 milhões em propinas que foram direcionadas para empresas no exterior. Ele obteve liberdade um mês depois, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o processo acabou arquivado.
“Telles faz parte da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB) do PT, que é a corrente majoritária no partido, da qual Quaquá também faz parte. Enquanto isso, Lindbergh é alinhado à Resistência Socialista, uma facção oposta. A nomeação de Telles foi uma decisão de Silveira e considero desonesto e sensacionalista da parte de Quaquá trazer novamente à tona a situação em que Telles foi acusado, como se ele fosse eternamente culpado para fins políticos”, destacou Olavo Brandão, membro da Executiva Estadual do PT no Rio.
O embate interno no diretório estadual do PT tem se intensificado nos últimos meses, à medida que conflitos sobre estratégias eleitorais para 2026 surgem. O grupo liderado por Quaquá defende uma aliança com Eduardo Paes (PSD), atual prefeito do Rio, que planeja se candidatar ao governo em outubro. Em contrapartida, a ala mais próxima a Lindbergh e Ceciliano se mostra reticente em apoiar o prefeito.
Ceciliano, que já foi presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), é cotado para concorrer a um mandato-tampão no governo estadual, considerando que o atual governador Cláudio Castro (PL) deve deixar o cargo em abril. Neste caso, a eleição seria realizada pelos deputados estaduais, permitindo que o vencedor possa concorrer novamente ao governo em outubro.
No ano passado, Quaquá já havia denunciado lideranças ligadas ao Planalto de utilizarem a máquina federal para objetivos políticos próprios, manifestando descaso com o presidente Lula. Em resposta, Lindbergh havia classificado Quaquá como “desprezível”, acentuando a tensão entre as facções do partido.

