Desemprego em Queda, Endividamento em Alta
O Brasil enfrenta uma situação paradoxal: embora o índice de desemprego esteja em queda, o endividamento das famílias alcançou níveis recordes. As últimas informações divulgadas pelo Banco Central revelam que quase metade da renda anual das famílias já é destinada ao pagamento de dívidas, como financiamentos, empréstimos pessoais e uso do cartão de crédito.
A inadimplência também se tornou uma preocupação crescente, atingindo 6,9% em dezembro do ano passado no segmento de crédito livre às famílias. Essa alta de 1,7 ponto percentual em um ano é considerada alarmante, principalmente quando se observa o padrão histórico do Banco Central, que pode indicar uma pressão financeira crescente sobre as famílias brasileiras.
O Papel dos Juros Elevados
Os altos juros desempenham um papel crucial nessa equação. Atualmente, a Taxa Selic está em 15% ao ano, o maior índice desde julho de 2006. Essa situação resulta em parcelas de crédito mais caras, o que limita a capacidade de consumo das famílias. De acordo com Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a taxa de juros média para o crédito livre está acima de 60% ao ano, um nível não visto desde 2017.
Com o comprometimento da renda mensal das famílias atingindo 29,3% entre outubro e novembro, o cenário se torna ainda mais delicado. Mesmo em um contexto macroeconômico que sugere uma recuperação, muitas famílias continuam a enfrentar dificuldades financeiras significativas.
Crescimento do Crédito e suas Implicações
Curiosamente, mesmo com os juros elevados, o saldo das operações de crédito livre para pessoas físicas aumentou para R$ 2,5 trilhões em dezembro, apresentando uma alta de 13,2% em comparação ao ano anterior. As concessões de crédito às pessoas físicas também subiram 8,8%, com destaque para o cartão de crédito, cujo volume de dívidas cresceu 17,1% em 2025.
Essa expansão do crédito, embora significativa, não se traduziu em um aumento proporcional nas vendas do comércio, que continua a registrar desempenho modesto. O uso crescente do cartão de crédito, que, segundo Bentes, é uma solução temporária para equilibrar os orçamentos familiares, gera preocupações, já que muitas famílias recorrem a ele não por sua taxa atrativa, mas pela conveniência de acesso.
Desafios Financeiros e Estratégias de Sobrevivência
Famílias, como a da pensionista Maria das Graças Barros, de 64 anos, têm adotado o cartão de crédito como uma ferramenta essencial para gerenciar despesas. “Às vezes a gente não tem dinheiro e não tem o que fazer. Tem que passar no cartão”, revelou ela, ressaltando a necessidade de parcelar compras para viabilizar o dia a dia.
Além disso, dados da Tendências Consultoria indicam que o nível de endividamento das famílias chega a 54% da renda, superando as estimativas oficiais do Banco Central. Esse cenário é atribuído ao fato de que, apesar das altas taxas de juros, as condições de crédito se tornaram mais restritivas, resultando em um ciclo de endividamento preocupante.
Impacto das Políticas Públicas
No início do terceiro mandato do presidente Lula, o endividamento das famílias parecia estar sob controle, alcançando 47,7% em dezembro de 2023, após a implementação do programa Desenrola, que facilitou a renegociação de dívidas. Contudo, a recente alta da Selic, iniciada em setembro de 2024, reacendeu as preocupações sobre a saúde financeira das famílias.
Frente a essa situação, especialistas como Bentes sugerem a reedição do programa Desenrola para mitigar os efeitos do aperto monetário. Ele acredita que, mesmo com a iniciativa anterior, o aumento da inadimplência não foi completamente evitado, mas que a implementação de medidas semelhantes poderia trazer alívio.
Perspectivas para o Futuro
O economista prevê que o início do ciclo de cortes na Selic, projetado para começar em março, poderá trazer melhorias significativas para a economia. Com isso, setores que enfrentaram dificuldades devido ao crédito restrito devem experimentar um crescimento nas vendas, que pode variar entre 3,5% e 4% neste ano.
Para Alessandra Ribeiro, da Tendências, a crescente adesão ao Crédito ao Trabalhador, uma plataforma de empréstimo consignado privado com juros mais baixos, poderá ajudar a aliviar a pressão sobre o endividamento das famílias. Além disso, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil é uma medida que pode contribuir para uma melhora na renda disponível.

