O Perigo da Angiopatia Amiloide Cerebral
A angiopatia amiloide cerebral (AAC) é uma condição em que proteínas amiloides se acumulam nas paredes dos vasos sanguíneos do cérebro, o que pode enfraquecer sua estrutura e prejudicar o funcionamento cerebral. Um novo estudo, que será apresentado durante a International Stroke Conference 2026, em Nova Orleans, mostra que a AAC pode quadruplicar o risco de demência, afetando tanto pacientes que já sofreram um acidente vascular cerebral (AVC) quanto aqueles sem histórico do evento.
Os pesquisadores destacam a relevância do rastreamento precoce de alterações na memória e no raciocínio, uma vez que a AAC representa uma ameaça significativa ao bem-estar cognitivo. Samuel S. Bruce, professor assistente de neurologia na Weill Cornell Medicine, em Nova York, e autor principal da pesquisa, enfatiza que há uma necessidade urgente de avaliações regulares para identificar o declínio cognitivo em pacientes com essa condição.
Estudo Abrangente com Dados Concretos
A pesquisa analisou dados de mais de 1,9 milhão de beneficiários do Medicare com 65 anos ou mais, entre 2016 e 2022. Ao longo desse período, os pesquisadores observaram a saúde dos participantes, considerando momentos em que estavam livres da AAC ou AVC, assim como períodos em que apresentavam uma ou ambas as condições. Isso possibilitou identificar quando a demência foi diagnosticada pela primeira vez.
Os resultados são alarmantes: em até cinco anos após o diagnóstico de AAC, cerca de 42% dos pacientes desenvolveram demência, em comparação a aproximadamente 10% entre aqueles sem a condição. Para aqueles que apresentaram tanto AAC quanto AVC, o risco de demência aumentou 4,5 vezes, enquanto pacientes com AAC isolada enfrentaram um risco 4,3 vezes maior. Já os que tiveram um AVC sem AAC mostraram um risco 2,4 vezes maior.
Mecanismos Complexos e Risco Aumentado
O que mais surpreendeu os pesquisadores foi a semelhança no risco de demência entre pacientes com AAC, independentemente de terem sofrido um AVC. Isso sugere que existem mecanismos que não estão diretamente relacionados ao AVC, mas que são fundamentais para o aumento do risco de demência entre indivíduos com AAC. “Esses resultados evidenciam a necessidade de monitorar proativamente as mudanças cognitivas após o diagnóstico de AAC e de gerenciar fatores de risco que possam contribuir para o declínio cognitivo”, ressaltou Bruce.
Reflexões sobre o Papel dos Pequenos Vasos Sanguíneos
A pesquisa se insere em um contexto maior sobre o impacto das doenças que afetam os pequenos vasos sanguíneos no cérebro, como observou Steven M. Greenberg, professor de neurologia na Universidade Harvard. Ele afirmou que as doenças desses vasos têm um papel significativo na demência, especialmente em casos de AAC, que muitas vezes ocorre em conjunto com a doença de Alzheimer, formando um cenário complicado e preocupante.
Embora os resultados da pesquisa sejam valiosos, os autores também alertam sobre algumas limitações. O estudo se baseou em códigos administrativos de diagnósticos do Medicare, o que pode levar a imprecisões, já que não foram realizadas avaliações clínicas detalhadas ou exames de imagem. Contudo, eles defendem que esses códigos já foram validados em estudos anteriores, sublinhando a necessidade de novas pesquisas com métodos diagnósticos padronizados para entender melhor a relação entre AAC, AVC e demência.

