Projeções e Desafios Econômicos
Desde a implementação das barreiras comerciais propostas por Donald Trump, o cenário econômico dos Estados Unidos passou por mudanças significativas. Inicialmente, havia a expectativa de que essas tarifas, voltadas para produtos como carne bovina e carros, gerariam um choque inflacionário que comprometeria o crescimento econômico e acarretaria um aumento no desemprego. No entanto, os dados até o momento têm desmentido essas previsões, mostrando uma economia mais resiliente do que se imaginava.
Recentemente, Trump publicou um artigo no Wall Street Journal, onde afirmou que suas políticas tarifárias “trouxeram a América de volta” e não tiveram um efeito negativo no crescimento econômico. Para ele, esses impostos na verdade atraíram novos investimentos e impulsionaram a atividade econômica, ajudando a reduzir a inflação “dramaticamente”.
Contudo, a análise de economistas brasileiros que monitoram a economia americana oferece uma visão mais complexa. Embora a inflação não tenha atingido níveis alarmantes, ela permanece acima da meta estabelecida, em parte devido às tarifas, o que dificulta o corte de juros pelo Federal Reserve (Fed) que Trump tanto exige.
O Crescimento Desigual e a Pressão Inflacionária
A inflação, embora controlada em certos aspectos, continua a causar preocupação, particularmente para os americanos que enfrentam um crescimento desigual na economia. As ações de grandes empresas de tecnologia estão impulsionando Wall Street, enquanto a desvalorização global do dólar traz incertezas ao mercado. Analistas acreditam que os recuos de Trump e as mudanças de estratégia por parte de empresas e países explicam o cenário econômico menos negativo do que muitos previam.
Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, ressalta que o protecionismo de Trump desafia a noção amplamente aceita de que economias abertas conseguem controlar melhor a inflação. Para Padovani, a volta desse debate sobre tarifas é surpreendente, pois muitos acreditam que fechar a economia não traz benefícios. Ele argumenta que isso limita a inflação e, consequentemente, afeta a renda da população e o crescimento econômico.
A Influência das Tarifas no Comércio e na Indústria
Embora as tarifas de Trump não tenham provocado uma alta inflacionária tão intensa quanto o esperado, seu impacto sobre a economia é inegável. O que se observa é uma reorganização nas cadeias de suprimento, com fornecedores chineses sendo substituídos por outros em mercados asiáticos. Ao mesmo tempo, o PIB dos EUA foi sustentado por investimentos massivos em inteligência artificial (IA), que estão redefinindo o cenário econômico.
Apesar de previsões otimistas, como a do FMI, que projetou um crescimento de 1,8% para os EUA até 2025, economistas acreditam que essa expansão pode ser ainda maior. A taxa de crescimento do PIB até agora tem sido impressionante, alcançando uma marca anualizada de 4,4%, a maior em dois anos. Entretanto, é importante notar que esse crescimento não é uniforme, beneficiando principalmente os mais ricos.
Desafios Futuras e a Situação do Mercado de Trabalho
A economia americana enfrenta o desafio de um crescimento que não gera muitos empregos. Recentemente, o país registrou o maior número de demissões em janeiro desde 2009, com um aumento significativo em comparação ao ano anterior. Apesar dessa situação, alguns especialistas não veem uma deterioração súbita no mercado de trabalho, especialmente em um ano eleitoral, onde a estabilidade da ocupação será um fator chave.
Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV/Ibre, prevê que o PIB americano cresça cerca de 2,4% este ano, impulsionado não apenas pelos investimentos em IA, mas também por um importante impulso fiscal. No entanto, as incertezas relacionadas às tarifas e à inflação permanecem, com analistas sugerindo que os efeitos econômicos das tarifas podem impactar os mais pobres e dificultar o crescimento futuro.
A Desvalorização do Dólar e suas Implicações
Um aspecto notável da economia americana sob a gestão de Trump é a desvalorização do dólar. Tradicionalmente, a imposição de tarifas deveria reforçar a moeda americana, mas, ao contrário, a percepção de instabilidade institucional provocada pela administração Trump levou a uma queda significativa no valor do dólar. De acordo com dados recentes, o índice que mede o valor do dólar caiu quase 10%, refletindo a volatilidade e a incerteza das políticas econômicas.
Samuel Pessôa argumenta que essa desvalorização pode ser um preço a pagar pela deterioração das instituições nos EUA, em um contexto onde as políticas tarifárias e a instabilidade política podem aumentar a inflação e prejudicar o bem-estar da população. O impacto político dessas dinâmicas será crucial, especialmente em um período eleitoral em que a percepção popular sobre a economia pode influenciar diretamente os resultados das eleições.

