Um Caminho Difícil de Reconstrução
Após anos de silêncio, Landfair, uma mulher que sofreu abusos na infância pelo cantor R. Kelly, decidiu compartilhar sua dolorosa experiência. O relato revela não apenas a brutalidade do abuso, mas também os efeitos duradouros que isso teve em sua vida. Ela descreve o início do aliciamento, quando Kelly se aproximou de sua família, se tornou um amigo e começou a elogiar a jovem. O que começou com conversas inocentes sobre música rapidamente se transformou em controle e isolamento, culminando em abusos sexuais. “Eu aprendi sobre sexo pela lente de um pedófilo”, afirma.
A relação que se desenvolveu era marcada por manipulações emocionais, onde Landfair se sentia convencida de ter uma conexão especial com o cantor. “Você me entende em um nível que está além de qualquer coisa que eu já experimentei”, era o que ele dizia. No entanto, essa conexão era apenas uma fachada para exigir dela comportamentos que a deixavam em situações desconfortáveis e abusivas. Ela lembra que, ao recusar práticas sexuais, chamadas por Kelly de “o próximo nível”, enfrentava punições.
O Julgamento Público e as Cicatrizes que Permanecem
Um vídeo gravado quando Landfair tinha apenas 14 anos, onde aparecia em situação constrangedora, foi amplamente exibido durante o julgamento de R. Kelly nos anos 2000. O que deveria ser um momento de busca por justiça se tornou um espetáculo degradante. “Era vendido ilegalmente e comercializado em esquinas. Pessoas com quem eu cresci faziam ‘festas’ para assistir”, descreve. O impacto desse episódio foi tão profundo que, em seu livro de memórias, “Who Was Watching Shorty?”, ela relata: “Meu nome não foi ocultado, o que significou que todos sabiam quem eu era.”
Em meio a esse processo, Landfair reflete sobre o papel do racismo em sua experiência. “Se eu tivesse sido uma garota caucasiana, teria sido tratada com mais compaixão”, afirma. Ela destaca que, muitas vezes, garotas negras são vistas de maneira diferente e sua vitimização é minimizada. Essa parte de sua história é crucial para entender a complexidade da sua luta e como fatores sociais e raciais influenciam a percepção e o tratamento das vítimas de abuso.
O Despertar e o Processo de Libertação
Após anos de convivência com o cantor, Landfair decidiu se afastar aos 26 anos. “Eu estava muito perdida, confusa e assustada”, relata. Para ela, foi um processo de reconstrução pessoal: “Eu tive que reconstruir todo o meu ser.” A mudança mais significativa ocorreu ao assistir à série documental “Surviving R. Kelly” em 2019. “Foi mortificante”, admite. Ao perceber que não era a única, mas uma entre tantas mulheres que sofreram, sentiu uma mistura de culpa e determinação. “Eu o protegi. Ele conseguiu machucar tantas pessoas depois de mim”, reflete.
Em 2022, Landfair teve a coragem de testemunhar contra R. Kelly em Chicago. “Eu expurguei naquele tribunal”, diz. Ao sair do depoimento, sentiu uma liberação emocional intensa, como se estivesse se livrando de um peso que carregava há anos. Essa experiência foi um marco em sua jornada de recuperação. “Foi meu momento de libertação. Pela primeira vez, eu não estava sob o feitiço dele”, conta.
Um Olhar para o Futuro
R. Kelly foi condenado em 2021 a 30 anos de prisão por extorsão e tráfico sexual, e em 2022 recebeu mais 20 anos em Chicago. Hoje, Landfair, aos 41 anos, é mãe de um garoto de cinco e trabalha em uma organização que apoia mães solo e um programa de saúde escolar. “Ainda estou no processo de reparar minha vida”, confessa. No entanto, ela se sente mais forte e avançada em sua jornada. “Eu fiz o trabalho. Agora posso ouvir suas músicas e lembrar daquelas emoções, mas consigo superar”, afirma.
Sobre o ex-cantor, ela reflete: “Foi poder. Ele conseguia o que queria, e isso era o que mais o gratificava.” Embora ainda sinta raiva e tristeza em alguns momentos, seu desejo é que R. Kelly compreenda o impacto de suas ações. Em uma nota enviada à revista Rolling Stone, o cantor comentou sobre seu caso, afirmando que Landfair foi injustamente forçada ao escrutínio público e expressou votos de sucesso e paz para ela. A história de Landfair é um exemplo de resiliência e superação, destacando a importância de dar voz às vítimas de abuso e reconhecer suas lutas.

