O Turismo e Seus Efeitos na Habitação Carioca
Uma simples caminhada pela Zona Sul do Rio de Janeiro revela um cenário onde conversas em idiomas como espanhol e inglês são comuns, misturando-se ao característico sotaque carioca. Essa realidade é confirmada pelos números. Segundo o presidente da Riotur, Bernardo Fellows, “Em 2025, recebemos 12,5 milhões de visitantes que movimentaram cerca de 27,2 bilhões de reais na economia da cidade, um recorde”. O aumento de visitantes estrangeiros foi significativo, com um crescimento de 44% em relação ao ano anterior.
Durante o Carnaval, dos 1,8 milhão de turistas que se hospedaram na cidade, 393 mil eram de outros países. Esse momento está favorecendo não apenas o comércio, mas também a rede hoteleira do Rio, criando oportunidades para investidores.” Com a migração de proprietários de imóveis menores, como estúdios, para a locação de curta temporada, o mercado imobiliário está em uma fase de transformação. O vice-presidente de locação e comercialização imobiliária do Secovi Rio, Leonardo Schneider, destaca que “as plataformas digitais têm ampliado as opções de hospedagem, mudando a forma como as pessoas planejam suas férias, muitas vezes optando por um apartamento ao invés de um hotel”.
A liderança de plataformas como Airbnb está modificando a dinâmica do mercado. A chamada ‘plataformização’ tem afetado também outros destinos turísticos ao redor do mundo, como Barcelona e Nova York, reduzindo a oferta de aluguéis tradicionais.
O Efeito Colateral do Crescimento Turístico
Contudo, esse crescimento traz seus desdobramentos, como o aumento dos preços e o que alguns especialistas chamam de ‘turismofobia’. Vitor de Pieri, professor de geografia da Uerj, explica que “os efeitos colaterais são a elevação do preço e um movimento social que resiste à crescente invasão do turismo”. Além disso, a reforma tributária prevista para entrar em vigor em 2027 poderá aumentar ainda mais o custo dos aluguéis de longa duração. O Secovi Rio aponta que, nos últimos dois anos, os aluguéis tiveram um aumento médio de 23%.
“Proprietários que têm mais de três imóveis e faturam acima de 240 mil reais anuais pagarão 27,5% em impostos. Com as novas regras, essa alíquota deve subir para cerca de 40%”, alerta Luiz Fernando Barreto, sócio-diretor da administradora de condomínios Estasa. Com contratos de aluguel de longa duração cada vez mais escassos, Barreto observa que “há um efeito em cadeia”, citando que moradores de Copacabana estão sendo forçados a procurar imóveis em áreas como Botafogo ou Laranjeiras por conta da inviabilidade de preços.
A Valorização Imobiliária e Seus Desafios
A valorização das áreas nobres também é notável. O Leblon continua a ser o bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, seguido por Ipanema, Lagoa, Gávea e Jardim Botânico. Na Zona Sudoeste, a Barra também está entre os mais caros do Brasil. Apesar do aumento dos preços, Leonardo Schneider, do Secovi Rio, argumenta que esse crescimento nos aluguéis se deve também à alta da taxa de juros no pós-pandemia. “Muitas pessoas optaram por deixar o dinheiro aplicado em vez de comprar imóveis, o que alterou a dinâmica da oferta e demanda”, comenta.
Vitor de Pieri ainda acredita que o Rio de Janeiro não chegou ao mesmo nível de saturação dos grandes centros turísticos da Europa e dos Estados Unidos. No entanto, há indícios claros de que os aluguéis estão cada vez mais altos, correlacionando diretamente com o fluxo de visitantes e o aumento na oferta de estúdios. Desde 2021, foram mais de mil apartamentos de um quarto colocados à venda anualmente, e em 2025, 75% deles foram comprados.
Valores de Aluguel Alarmantes
Os dados do Secovi revelam que, nos últimos dois anos, o valor de aluguel de kitnets e apartamentos de um quarto subiu 40,4%. Omar Farhat, da Omar do Rio e vice-presidente da Associação Brasileira de Locação por Temporada, observa que muitos estúdios estão sendo convertidos em Airbnb. “O mercado de turismo começou a superar a capacidade dos hotéis, e a demanda pelos imóveis aumentou significativamente”, afirma.
Essa situação levanta preocupações, especialmente em locais como Copacabana, onde os moradores temem a superlotação. Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, alerta: “Há empreendimentos imobiliários com muitas unidades, mas ninguém discute o impacto em um bairro já tão adensado.”
Enquanto o Rio de Janeiro passa por um momento de valorização imobiliária, os desafios para os residentes se intensificam. A tensão entre a vocação turística e o direito à moradia é um dilema que definirá o futuro da cidade. Com a crescente demanda e os preços excessivos, a equação do equilíbrio entre turistas e moradores locais é um tema urgente e necessário de ser debatido.

