A Liberação das Aves no Parque Nacional da Tijuca
A paisagem carioca ganhou novas cores com a liberação de três araras-canindé (Ara ararauna) no último dia 7. Este evento histórico marca a primeira vez em mais de 200 anos que essas aves podem voar livremente pela cidade, já que o último registro da espécie em meio urbano remonta a 1818, no período colonial. As araras, carinhosamente chamadas de Fernanda, Fátima e Sueli, foram transferidas ao Parque Nacional da Tijuca em junho de 2025 e, após um cuidadoso processo de aclimatação de sete meses em um viveiro adaptado para elas, finalmente ganharam a liberdade.
O quarto membro do grupo, um macho chamado Selton, ainda aguarda para ser solto, pois está em processo de troca de penas. Os nomes das aves foram inspirados na renomada atriz Fernanda Torres e no ator Selton Mello, além das personagens do famoso seriado “Tapas & Beijos”, interpretadas por Torres e Andrea Beltrão.
Importância do Projeto Refauna
Cada arara foi equipada com colar, anilha nas patas e microchip, para garantir o monitoramento de sua adaptação. O projeto Refauna, responsável pela reintrodução, está incentivando os cariocas a registrar a presença das aves e compartilhar fotos e vídeos, permitindo que pesquisadores acompanhem os deslocamentos e hábitos das araras na natureza.
Entretanto, os biólogos pedem cautela à população: é fundamental que as pessoas não interfiram com as aves. Durante o período de adaptação, que recebeu apoio do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), as araras foram treinadas para evitar o contato humano e ganhar autonomia. Para isso, também passaram por uma transição alimentar, aprendendo a identificar os frutos nativos da Mata da Tijuca.
Monitoramento e Cuidados com as Aves
Em entrevista, Lara Renzeti, bióloga do Refauna e coordenadora do projeto, explicou que existe a possibilidade de recapturar algumas araras, caso sejam detectadas ameaças à saúde delas. “São muitas habilidades novas que elas ainda precisam aprender para sobreviver, que não podem ser totalmente replicadas em um recinto”, afirma Renzeti. “Elas precisarão conhecer a floresta para se adaptarem, e por isso é essencial o nosso acompanhamento para entender suas necessidades.”
A chefe do Parque Nacional da Tijuca, Viviane Lasmar, destacou que uma campanha de comunicação foi lançada nas redes sociais para orientar os moradores sobre como agir ao avistar as araras. Um número de WhatsApp (21 96974-4752) está disponível para receber relatos e denúncias, e Renzeti comentou que a colaboração da comunidade nesse canal tem sido crucial.
Transição Alimentar e Expectativas Futuras
Nos primeiros dias após a soltura, as araras foram alimentadas com ração e frutas em uma plataforma montada em árvores do parque, como suporte inicial durante a transição. Agora, conforme relatado pela bióloga, essa fase de suplementação já foi concluída. As aves foram resgatadas anteriormente do parque Três Pescadores, em Aparecida (SP), onde estavam sob cuidados após operações para a apreensão de fauna. Antes de serem transferidas para o Rio, elas passaram por uma série de exames para garantir que estavam saudáveis.
O Refauna tem como meta reintroduzir um total de 50 araras-canindé em um período de cinco anos, com a expectativa de que novas aves cheguem à Tijuca em 2026. Renzeti revelou que já existem dois casais prontos em uma instituição parceira, enquanto um terceiro casal está em processo de avaliação sanitária, podendo trazer quatro ou seis novos indivíduos em breve.
Contribuição para a Biodiversidade e Preservação
Além de enriquecer a biodiversidade local, a reintrodução das araras-canindé oferece benefícios significativos ao ecossistema. Essas aves desempenham um papel vital na dispersão de sementes de árvores nativas, sendo as únicas capazes de propagar diversas espécies de plantas. Lasmar enfatiza que o retorno das araras representa um avanço importante para a Mata Atlântica, o bioma que mais sofreu desmatamento no Brasil. Ela ressalta que é possível mudar a relação entre os seres humanos e a fauna, promovendo a recuperação e a preservação das espécies nativas.
“O parque, apesar da pressão urbana, continua preservado e capaz de fornecer os recursos que as araras necessitam: frutos, árvores para ninho, um ambiente seguro e água potável, permitindo que elas tentem estabelecer uma população viável aqui”, conclui Lasmar.

