Valorização do Ouro: Uma Febre Econômica
O recente aumento significativo no preço do ouro, que superou a marca de US$ 5.500, levanta questões sobre os motivos subjacentes a essa valorização. Para o economista Sérgio Vale, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, essa elevação pode ser interpretada como uma ‘febre’ que o sistema econômico apresenta, exigindo análise cuidadosa para identificar suas causas. Durante uma entrevista ao podcast ‘O Assunto’, ele comparou a situação atual a uma resposta defensiva do organismo a uma infecção, onde a economia se defende de desafios internos e externos.
“O ouro é como se fosse uma febre. E o que a gente precisa agora é identificar a causa dessa febre. É uma bactéria, é um vírus, é uma bactéria agressiva? Os remédios que existem resolvem?”, questionou Vale. Essa inquietação é pertinente, visto que o cenário econômico atual é distinto de crises passadas, uma vez que é marcado por desorganização nas instituições americanas e tensões geopolíticas sem precedentes, especialmente durante a presidência de Donald Trump.
Crises Passadas e Soluções Ineficazes
O economista, que também atua como economista-chefe da consultoria MB Associados, expressou um certo pessimismo quanto à capacidade de recuperação da economia atual. Ele recordou que, na década de 1970, a ‘febre do ouro’ era tratável com intervenções econômicas eficazes, como as implementadas por Paul Volcker, que alterou a ordem monetária internacional e pôs fim ao sistema ouro-dólar. “Nos anos 70, a febre do ouro tinha remédios. O Volcker foi um remédio que trouxe soluções econômicas e a febre passou. Agora, sinto que não há antibiótico potente o suficiente para resolver essa crise”, alertou.
Vale enfatizou que, neste momento, a fonte da infecção econômica continua ativa, dificultando a recuperação. O economista Paul Volcker, que faleceu em dezembro de 2019, foi um dos principais responsáveis pela transformação da política monetária dos Estados Unidos, ao anunciar, em 1971, o fim da conversibilidade do dólar em ouro, o que deu início a um novo regime de câmbio flutuante.
Fatores que Impulsionam o Preço do Ouro
Vários fatores políticos e econômicos estão impulsionando a valorização do ouro. Dentre eles, a incerteza política e institucional nos Estados Unidos se destaca, com uma série de ataques direcionados à independência do Federal Reserve e ações judiciais envolvendo diretores do banco central americano. Essas movimentações criam um ambiente de instabilidade que afeta diretamente os mercados.
Além disso, a crise fiscal nos EUA, resultante de uma política fiscal criticada e de déficits crescentes, gera dúvidas sobre a capacidade de ajustes por parte do Congresso americano. As tensões geopolíticas, com disputas comerciais acirradas com a China e comportamentos erráticos do governo, como a proposta de aquisição da Groenlândia, também exercem pressão sobre a economia e, consequentemente, sobre os preços do ouro.
Indicações de Mudanças no Federal Reserve
No dia 30 de setembro, o presidente Donald Trump indicou o economista Kevin Warsh para assumir a presidência do Federal Reserve, substituindo Jerome Powell, que enfrenta críticas severas. A nomeação de Warsh, que tende a apoiar uma política de juros mais baixos, ainda precisa ser aprovada pelo Senado. O mercado reagiu positivamente à indicação, resultando em uma valorização do dólar e, consequentemente, a desvalorização do ouro, que caiu 3,7% em resposta.
O Assunto: Um Podcast para Entender a Economia
O podcast ‘O Assunto’, produzido pela g1, é uma excelente fonte para aqueles que buscam compreender mais profundamente as dinâmicas econômicas atuais. Desde sua estreia em agosto de 2019, o programa acumulou mais de 168 milhões de downloads e é acessível em diversas plataformas de áudio, além do YouTube, onde já ultrapassou 14,2 milhões de visualizações. A análise de Sérgio Vale ressalta a importância de entender as causas e consequências da valorização do ouro, um tema crucial para investidores e cidadãos.

