A Influência Política na Gênese dos Blocos
O carnaval carioca, celeiro de cultura e tradições, comemora, em 2026, os 120 anos dos blocos de rua, que nasceram em um contexto político específico. Em 1906, Afonso Pena foi eleito presidente do Brasil com impressionantes 98% dos votos, e a coligação que o apoiou foi chamada de “O Bloco”. Essa denominação ressoou entre o povo e, rapidamente, outros blocos, tanto literários quanto esportivos, começaram a surgir, culminando nos famosos blocos carnavalescos. Essa história é retratada no livro “Os blocos do carnaval carioca: o que são, o que dizem que são, o que podem ser e o que não são mais, pois já foram”, escrito pelo pesquisador Tiago Ribeiro.
Ribeiro conta que o primeiro registro dos blocos no carnaval carioca apareceu na edição do Jornal do Brasil, datada de 18 de dezembro de 1906, mencionando o recém-fundado Bloco dos Trepadores, localizado na Zona Norte do Rio. O fenômeno logo se espalhou, com o surgimento do Bloco Carnavalesco São José em Recife no ano seguinte. No Rio, a lista continuou a crescer, com a fundação do Bloco dos Democráticos de Cascadura em 1908 e do Bloco Democrata de Botafogo em 1909, transformando o carnaval em um verdadeiro mosaico de estilos e ritmos.
A Evolução dos Blocos ao Longo do Tempo
Entre 1906 e 1910, apenas cinco blocos foram registrados, e suas características eram bem diferentes das atuais, lembrando mais grandes sociedades do que os blocos conhecidos hoje. Tiago Ribeiro destaca que foi somente na década de 1910 que a diversidade de formatos começou a surgir. “As discussões sobre o que é um bloco já existiam naquela época. O samba ainda não era o gênero predominante; havia blocos que tocavam castanholas, boleros e até tangos”, comenta Ribeiro. A presença dos blocos poéticos, que declamavam ao invés de dançarem, enfatiza a pluralidade que sempre permeou essa tradição.
Luiz Antonio Simas, escritor e estudioso da cultura carioca, complementa que a natureza multifacetada dos blocos é essencial para sua identidade: “Os blocos têm várias dimensões. Temos os blocos de embalo, os sujos e até os de enredo, que sempre tiveram forte presença no Rio. Nos anos 1920, surgiram os blocos de arenga, que eram mais voltados para brigas e confusões”.
Humor e Espontaneidade no Carnaval
A durabilidade e popularidade dos blocos estão, sem dúvida, ligadas à sua capacidade de se adaptar às transformações culturais ao longo dos anos. Para Tiago Ribeiro, esses blocos funcionam como verdadeiras “esponjas” sociais: “Eles captam tudo ao seu redor. Nos anos 1920 e 1930, os blocos de concurso começaram a se aproximar dos ranchos, enquanto em décadas posteriores, alguns se transformaram em escolas de samba. Atualmente, eles misturam elementos de festas, DJs e a estética contemporânea, sempre com um toque de irreverência”.
A quantidade de blocos registrados este ano impressiona: são 459 cortejos autorizados pela Riotur, com a expectativa de que cerca de 6,8 milhões de foliões ocupem as ruas em busca de diversão. Contudo, esse crescimento também traz desafios. Rodrigo Rezende, coordenador da Liga do Zé Pereira, observa que “historicamente, blocos que antes desfilavam com 200 pessoas agora atraem multidões de até 50 mil. Para garantir a segurança e a ordem, é essencial o suporte de infraestrutura como banheiros químicos e gestão de trânsito”.
O Futuro dos Blocos: Entre Tradição e Inovação
Com o passar dos 120 anos, a forma como os blocos são organizados e percebidos pela sociedade evoluiu significativamente. Ao longo da história, a ideia de decadência dos blocos já foi levantada, mas Tiago Ribeiro rejeita essa noção: “Houve momentos em que se falava na ‘morte’ dos blocos, mas sempre surgiram novas manifestações, como Bafo da Onça e Cacique de Ramos, que conquistaram o público sem participar de concursos”.
No entanto, Luiz Antonio Simas critica o fenômeno dos megablocos, que, segundo ele, se afastam da essência do bloco. “O que chamamos de megabloco é, na verdade, um show. O cortejo sempre esteve ligado à ideia de coletividade e participação”, argumenta. Para ele, o desafio está em equilibrar as grandes atrações com a autenticidade dos blocos tradicionais.
João Pimentel, autor do livro “Blocos”, enfatiza a importância de preservar a espontaneidade: “O futuro do carnaval deve ser construído pensando no presente, mantendo viva a tradição dos blocos formados por grupos que se organizam de forma autônoma”.
Este ano, o Suvaco do Cristo, um dos ícones do carnaval, se despede após 40 anos de história, marcando o fim de um ciclo e a celebração de uma trajetória rica e diversificada, que reflete a alma do Rio de Janeiro.

