Análise sobre os Desafios da Candidatura de Zema
Recentemente, as entrevistas concedidas por Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e membro do partido Novo, têm sido marcadas por insistentes negativas à possibilidade de desistência de sua candidatura à presidência. Apesar das reiteradas declarações de seu partido afastando essa ideia, cresce entre as lideranças a inclinação para um alinhamento com o senador Flávio Bolsonaro (PL) já no primeiro turno, mesmo sem a perspectiva de uma vaga de vice na chapa.
Em encontros reservados realizados em São Paulo e Brasília, os representantes do Novo provenientes da região Sul têm manifestado de maneira mais clara a preferência por se associar nacionalmente ao partido de Valdemar Costa Neto. Três figuras já estão operando nesse sentido em nível regional: Deltan Dallagnol, o ex-procurador da Lava-Jato e pré-candidato ao Senado na chapa de Sergio Moro (PL) no Paraná; o deputado Marcel Van Hatten, que também é pré-candidato ao Senado na chapa de Luciano Zucco (PL) no Rio Grande do Sul; e Adriano Silva, ex-prefeito de Joinville e pré-candidato a vice-governador na chapa de Jorginho Mello (PL) em busca da reeleição.
Além das discussões sobre o futuro do Novo na corrida presidencial de 2026, há um debate mais profundo sobre a identidade da sigla, especialmente após as fracas performances eleitorais em 2018 e 2022. João Amoêdo recebeu apenas 2,50% dos votos em 2018, e Felipe d’Avila obteve míseros 0,47% em 2022. A questão que permeia as conversas internas é: o Novo deseja se tornar uma extensão do bolsonarismo, como defendem Deltan, Van Hatten e Adriano Silva, ou pretende se posicionar como uma alternativa na direita, capaz de questionar os pontos frágeis da trajetória de Flávio e sua família?
Os Desafios Enfrentados por Zema
Esse dilema tem gerado desconforto entre os estrategistas de Zema. A equipe dele anseia por liberdade para criticar Flávio Bolsonaro, mas encontra resistência. Enquanto Zema participava de manifestações em apoio à anistia de Bolsonaro e de seus aliados condenados pelos eventos de 8 de janeiro, ele agora vê Renan Santos, pré-candidato à presidência pelo recém-fundado partido Missão, se consolidar como um candidato antissistema — uma posição que o Novo planejava ocupar através de críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao governo Lula.
O partido Missão teve seu registro aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em novembro, após o Movimento Brasil Livre (MBL) conseguir o número mínimo de assinaturas necessárias. Criado em 2014, o MBL ganhou força com a Lava-Jato e o impeachment de Dilma Rousseff.
Um evento em março em São Paulo ilustrou como o Missão está menos restringido que o Novo. Durante o lançamento da candidatura de Kim Kataguiri (Missão) ao governo de São Paulo, Renan Santos fez o que Zema está impedido de fazer: chamou Flávio de “ladrão” e “símbolo da direita corrupta”. Essa abordagem tem gerado repercussões significativas, com clipes desse tipo viralizando nas redes sociais e levantando questionamentos sobre o apoio do eleitor para Zema.
A Estagnação de Zema nas Pesquisas
A estagnação de Zema nas pesquisas, que pode ser acentuada pelo anúncio da pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) à presidência, não alterou a postura de Deltan. O ex-procurador da Lava-Jato vê que abordar temas como rachadinha e ligações de Flávio com milícias afasta a possibilidade de Zema ser vice na chapa do PL — um movimento que ele mesmo tentou articular.
Desde 2018, quando surgiram as primeiras denúncias envolvendo Flávio, Deltan tem demonstrado um cuidado calculado ao evitar confrontos diretos com o senador. Mensagens trocadas entre procuradores da Lava-Jato, divulgadas pelo site Intercept em 2019, revelaram que Deltan reconhecia que as movimentações financeiras de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, indicavam um esquema de rachadinha. Contudo, o ex-procurador optou por não se posicionar publicamente sobre o assunto na época.
Desde que se filiou ao Novo há três anos, Deltan tornou-se uma voz influente nas decisões do partido. Seu prestígio é evidente na prestação de contas do Novo; entre 2023 e 2024, ele recebeu um salário mensal de R$ 30,4 mil, além de um contrato de R$ 340 mil para sua empresa, que ofereceu cursos de formação política.

