O Impacto do Carnaval na Diplomacia Cultural Brasileira
No último fim de semana, o Carnaval de 2026 encerrou-se com uma marca impressionante: 300 mil turistas internacionais se juntaram à festa, representando um crescimento de 17% em comparação com 2025. De acordo com dados da Embratur, a receita gerada pelos visitantes estrangeiros durante o Carnaval alcançou quase US$ 186 milhões. Porém, a importância do evento vai além da folia e do impacto econômico.
A festividade popular não apenas atrai turistas, mas também serve como uma plataforma para promover debates políticos e sociais, com referências a temas como solidariedade a Cuba, Venezuela e Gaza, além de críticas ao governo dos Estados Unidos. Nas redes sociais e na imprensa internacional, o Carnaval se tornou um fenômeno, ganhando destaque e popularidade entre estrangeiros.
Essa performance positiva do Carnaval ocorre em um momento em que a cultura brasileira está em evidência global, especialmente com o filme ‘O Agente Secreto’, que está concorrendo a três categorias do Oscar e já ganhou três prêmios no Globo de Ouro. O conceito de ‘Brazilcore’ surge como um nome para a crescente difusão da cultura e estilo de vida brasileiros ao redor do mundo.
Explorando o Potencial do Soft Power
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas discutem como o governo brasileiro poderia capitalizar essa crescente valorização da cultura nacional para expandir seu soft power. Alana Camoça, professora de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), argumenta que o Carnaval é uma vitrine da diversidade e alegria brasileiras, indo além do mero entretenimento. Segundo ela, a festa é um meio eficaz para fomentar uma imagem positiva do Brasil no exterior.
“A recepção de um número expressivo de turistas estrangeiros não só aumenta a visibilidade do país, mas também contribui para construir uma ‘marca Brasil’ que vai além dos estigmas de desigualdade e violência. Isso pode abrir portas para fortalecer laços diplomáticos e atrair investimentos”, explica Camoça.
No entanto, ela alerta que essa popularidade não se traduz automaticamente em poder político. Para isso, é necessário desenvolver uma diplomacia cultural que una o Carnaval a outras expressões artísticas, como o cinema, ampliando o alcance de pautas relevantes para o Brasil.
Uma sugestão seria a promoção de mostras de cinema brasileiro em festivais internacionais, abordando temas como a preservação da Amazônia e a luta contra a desigualdade. Em um mundo cada vez mais digital, o governo precisaria investir em conteúdo para plataformas online e colaborar com serviços de streaming, além de garantir a tradução de produtos culturais brasileiros.
O Carnaval como Ativo da Política Externa
Rogério Baptistini Mendes, sociólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, também compartilha sua visão sobre o Carnaval como um ativo valioso para a política externa do Brasil. “Num contexto global frequentemente marcado pela intolerância, o Carnaval reafirma o país como um espaço de convivência multicultural e celebração da diversidade”, observa.
Ele nota que, em 2026, celebridades internacionais estiveram presentes, e a mídia destacou o Carnaval como um símbolo de resistência e alegria, colocando o Brasil em uma posição de destaque em tempos de fechamento cultural. Mendes ressalta que o Brasil já influenciou debates globais em diferentes momentos, como durante o projeto da UNESCO sobre relações raciais nos anos 1950, que influenciou políticas em países como os Estados Unidos e nações africanas.
Uma Nova Era Cultural?
A reflexão sobre a cultura brasileira na era contemporânea é fundamental, especialmente ao se comparar com o impacto cultural da década de 1940. Naquela época, figuras como Carmen Miranda e o personagem Zé Carioca eram representações moldadas pelo contexto político e social dos Estados Unidos. Alana Camoça aponta que a diferença é notável: enquanto na década de 1940 a cultura brasileira era utilizada para fins políticos por Washington, hoje, a produção cultural é mais descentralizada e, mesmo com influências externas, tem um caráter mais autêntico.
Mendes concorda que, enquanto anteriormente o Brasil era reduzido a estereótipos, atualmente a cultura é multifacetada. “Estamos em um momento em que nossa cultura pode ser uma poderosa ferramenta de expressão de nossa identidade, mas ainda enfrentamos desafios significativos”, finaliza ele.
Assim, a cultura brasileira, impulsionada pelo Carnaval e pelo cinema, apresenta uma oportunidade ímpar para o fortalecimento da imagem do Brasil no exterior, desde que acompanhada de uma estratégia coerente e respeitosa das diversidades culturais.

