Uma Noite de Emoções e Música
Na última quinta-feira, 31 de janeiro, o clube Manouche, no Rio de Janeiro, foi palco de um espetáculo emocionante com a estreia do show “Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro”. A talentosa Cida Moreira abriu a apresentação com “Demais”, uma obra de Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, que foi imortalizada por Ro Ro em 1982. O samba-canção tornou-se um símbolo do amor exacerbado que permeou a vida da artista, e as interpretações de Cida prometem uma nova dimensão a essa canção.
Com um repertório que inclui uma das pérolas do cancioneiro autoral de Angela, “Devoção”, Cida apresentou uma obra do álbum “Só nos resta viver” (1980). “Sempre é hora de brotar canções / Confessar paixões exiladas / … / Todo dia nova fantasia / O real que cria sonho e ilusão / Devoção de um poeta e louco / Que não abre concessão”, cantou, estabelecendo uma conexão imediata com o público. A plateia se entregou ao clima da apresentação, que levou os espectadores a um mergulho profundo na poesia e na loucura de Angela Ro Ro.
As trajetórias de Angela Maria Diniz Gonsalves e Maria Aparecida Guimarães Campiolo sempre foram entrelaçadas pela amizade e pela música. Desde 1978, as cantoras têm compartilhado palcos, e a conexão entre elas se manifestou de forma intensa na performance de Cida. A artista, que é conhecida por sua voz operística e sua ligação com a Vanguarda Paulista nos anos 1980, trouxe à tona um canto visceral, refletindo toda a evolução em sua carreira.
A Interpretação de Cida e a Presença de Angela
Embora Cida Moreira seja reconhecida por suas interpretações de Angela Ro Ro, a artista parece ter encontrado um novo significado em suas canções, especialmente agora, após a partida de sua amiga. A estreia do show, que contou com a produção da filha Júlia Porto, começou com uma tensão palpável, resultado do nervosismo de Cida e de um incidente com uma espectadora que a incomodou. Apesar do clima tenso, a cantora conseguiu restabelecer a normalidade, pedindo desculpas ao público e reafirmando sua paixão pela música.
No repertório, Cida incluiu canções que vão além dos hits, trazendo uma nova abordagem a faixas como “Karma secular” e “A mim e a mais ninguém”. Cada interpretação se revelou única, com toques pessoais que variavam de uma inflexão vocal a uma nova cadência no piano. Em “Balada da arrasada”, por exemplo, a interpretação de Cida evocou a passionalidade de um tango, mostrando como sua musicalidade se expande a cada apresentação.
Um Mergulho na Poesia de Angela Ro Ro
Com “Me acalmo danando” (1979) ressurgindo sob uma nova luz na voz de Cida, outras canções, como “Mares de Espanha” e “Não há cabeça”, deixaram a sensação de que ainda têm muito a oferecer. A artista já possui uma agenda cheia de apresentações marcadas até abril e promete que o espetáculo deve alcançar sua plenitude ao longo da turnê.
A devoção de Cida pela obra de Angela se torna evidente quando ela entrelaça suas canções com a récita de versos de “Solitários interplanetários” e “Sistema”, demonstrando uma conexão profunda com a poética da compositora. O show culminou com uma performance marcante de “Escândalo”, uma canção que Caetano Veloso fez para Angela, e, antes do bis, Cida finalizou com o refrão de “Perfeição”, de Renato Russo, destacando a sensibilidade que une esses grandes artistas.
No bis, o jazz tomou conta do palco com “Summertime”, um clássico que ambas as artistas interpretaram ao longo de suas carreiras. O resultado foi uma mistura de vozes e emoção, onde Cida Moreira e Angela Ro Ro se uniram mais uma vez, celebrando a devoção à música e à poesia que permeiam suas vidas. E assim, a noite no Manouche se transformou em um tributo a amizades eternas e à beleza das canções que nos conectam.

