Reconhecimento que Marca uma Nova Etapa
No dia 11 de março de 2026, o Brasil testemunhou um marco significativo no reconhecimento cultural. Durante uma reunião no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) decidiu de forma unânime incluir o Circo de Tradição Familiar no Livro de Registro das Formas de Expressão. Essa conquista, almejada desde 2005, valida a importância da itinerância, da convivência entre gerações e da transmissão oral de saberes como elementos essenciais da identidade e da memória social brasileira.
Para entender as implicações desse reconhecimento e os desafios contínuos que o povo circense enfrenta, conversamos com Cícero Romão Batista Pereira, natural de Sousa (PB). Ele, que é cigano calon, bacharel em Administração e especialista em Direito Trabalhista, atualmente atua como diretor executivo nacional da Pastoral dos Nômades do Brasil (PN), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nessa entrevista, Cícero revela como essa nova condição pode ajudar a combater preconceitos e facilitar o diálogo com as prefeituras, além de garantir direitos fundamentais como educação e saúde para as comunidades que vivem na estrada.
Avaliação do Reconhecimento pelo Ponto de Vista da Pastoral dos Nômades
No que diz respeito ao impacto do título de Patrimônio Cultural do Brasil no Circo de Tradição Familiar, Cícero compartilha: “Recebemos essa decisão com enorme alegria e um senso de justiça histórica. Para nós, o circo sempre foi mais do que apenas um entretenimento; é uma maneira de viver, uma expressão cultural e uma identidade que se constrói na resistência e na itinerância. A confirmação do Iphan é um passo concreto no combate ao preconceito e um convite à inclusão dos circos em nossas cidades”. A declaração dele ressalta a dignidade, a história e o pertencimento das famílias circenses, aspectos que são frequentemente marginalizados. Assim, esse reconhecimento abre um caminho para um olhar mais respeitoso por parte da sociedade e das instituições.
A Tradição Familiar e os Desafios da Modernidade
Cícero destaca ainda a importância da “Tradição Familiar” no contexto circense. “São João Paulo II nos dizia que a família é o santuário da vida. No circo, essa tradição é o coração pulsante”, afirma. De acordo com ele, a transmissão de conhecimento dentro do circo acontece diariamente e de maneira prática, com um aprendizado que vai além da teoria. Em tempos cada vez mais digitalizados, ele enfatiza a necessidade de resguardar essa prática que é essencial para a preservação da cultura circense. O desafio é garantir que a tecnologia não substitua a interação humana e o aprendizado intergeracional que ocorrem entre pais e filhos nesse ambiente.
Impactos no Diálogo com as Prefeituras e a Infraestrutura Necessária
Quando questionado sobre como o título pode facilitar as relações com as prefeituras, Cícero menciona que “esse reconhecimento fortalece o diálogo institucional”. Ele destaca que uma das principais dificuldades enfrentadas pelas famílias circenses é a obtenção de espaços adequados e infraestrutura básica. O reconhecimento como patrimônio cultural pode instigar políticas públicas mais sensíveis, trazendo regulamentações que permitam a instalação dos circos com dignidade, incluindo acesso a água, energia e segurança. Recentemente, a Pastoral dos Nômades lançou uma “Carta aos Prefeitos e Prefeitas do Brasil”, buscando sensibilizar os governantes a revisar a burocracia e os altos custos que recaem sobre os circenses.
Educação e Saúde: Direitos que Precisam ser Garantidos
Outro aspecto crucial abordado foi a dificuldade que as famílias circenses enfrentam na matrícula de crianças e no acesso à saúde, devido à sua vida itinerante. “É angustiante para os pais ter que ‘provar’ o direito à educação, como se isso dependesse de um endereço fixo”, explica. Segundo ele, tanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) quanto a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional garantem que todas as crianças têm direito à educação, independentemente das circunstâncias de sua residência. O novo status de patrimônio cultural pode, portanto, iluminar essas questões e evidenciar a necessidade de implementar políticas que respeitem o modo de vida itinerante das famílias.
O Papel da Pastoral dos Nômades e as Perspectivas Futuras
Cícero conclui com um olhar esperançoso para o futuro. “Esse reconhecimento é um compromisso evangélico que nos impulsiona a transformar essa conquista em ações concretas”, diz. O papel da Pastoral será garantir que o registro se traduza em dignidade e condições reais de vida para as comunidades circenses. Ele destaca a importância da colaboração entre as instituições e a necessidade de ouvir as vozes dos circenses para criar soluções que atendam às suas necessidades. O circo, segundo ele, pode se reinventar sem perder sua essência, desde que esteja enraizado na vida em família e na convivência com o povo, mantendo-se fiel às suas tradições e valores.

