Um Marco para a Cultura Circense
Na última quarta-feira, 11 de março, o Circo de Tradição Familiar foi oficialmente registrado como Patrimônio Cultural do Brasil, em uma decisão do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, que se reuniu no histórico Palácio Gustavo Capanema, localizado no coração do Rio de Janeiro. Com essa deliberação, essa rica expressão cultural é agora inscrita no Livro de Registro das Formas de Expressão, um reconhecimento que ressalta sua importância para a memória e identidade da sociedade brasileira. O conselho enfatizou a relevância do circo como uma manifestação cultural de grande significância nacional, além de sua função vital na promoção de espetáculos e práticas lúdicas que fortalecem a memória social.
O Circo de Tradição Familiar, presente em diversas regiões do país, é caracterizado pela sua itinerância e pela organização em núcleos familiares, transmitindo oralmente saberes, técnicas e modos de vida entre gerações. A relatora do processo, Desirèe Tozi, do Ministério da Cultura (MinC), ressaltou que essa tradição é mantida por famílias que, em alguns casos, chegam a viver a oitava geração de circenses. Para ela, o circo não é apenas um espetáculo; é uma forma de trabalho, uma casa, um sustento e, acima de tudo, um modo de vida. Neste contexto, a família desempenha um papel central na manutenção dos conhecimentos e práticas que moldam a vida sob a lona.
A Relevância Social do Circo Itinerante
Desirèe Tozi também destacou a função social que o circo desempenha em várias regiões do Brasil. Ela apontou que, além de sua relevância artística e cultural, o circo leva espetáculos e experiências culturais a localidades que, muitas vezes, carecem de outros equipamentos públicos de cultura. “O Circo Itinerante não só proporciona cultura a áreas que não têm acesso, mas também mantém um modelo de gestão único e um espaço de formação contínua”, afirmou. Para a relatora, a resistência e a preservação dos ofícios tradicionais reforçam a importância deste reconhecimento: “Essas características conferem ao circo os requisitos necessários para ser oficialmente considerado uma expressão essencial da identidade cultural brasileira.”
A pesquisa que subsidiou o reconhecimento do circo revela sua capacidade de adaptação, um traço marcante do circo tradicional familiar no Brasil. Os saberes e práticas circenses, transmitidos de geração em geração, foram moldados conforme as condições regionais e temporais, sem perder a conexão com a tradição. O resultado é uma expressão cultural dinâmica, profundamente arraigada no país, que é construída tanto pela permanência das práticas ancestrais quanto pela criatividade de seus praticantes. Para elaborar o inventário e o dossiê que fundamentaram a candidatura, foram realizadas mais de cem entrevistas em todas as regiões do Brasil.
Vozes Circenses da Nova Geração
Walter Olivério, integrante do Fórum de Circo da Paraíba, destacou a importância desse reconhecimento para os artistas circenses. Ele explicou que, para muitos que vivem sob a lona, o circo é mais do que um trabalho; é uma forma de vida e um conjunto de saberes transmitidos diariamente por meio da tradição oral. “O circo corre nas veias de cada um de nós. Essa itinerância nos ajuda a entender cada comunidade, cada história e a vivência do que acontece sob a lona e fora dela. Portanto, viva o circo e viva essa tradição familiar!”, exclamou.
A jornada até o reconhecimento não foi fácil. O pedido inicial de registro foi protocolado em 2005, através do Circo Zanchettini, do Paraná, sob a liderança de Wanda Cabral Zanchettin, que desde 1993 lutava pelo reconhecimento do circo como patrimônio imaterial nacional. O processo envolveu inúmeras famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas, culminando na pesquisa do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) e na instrução técnica do processo. O próprio dossiê é uma homenagem aos circenses que, há mais de três décadas, batalham por esse reconhecimento.
Os Desafios e a Salvaguarda do Circo
Edlamar Maria Cabral Zanchettin, filha de Wanda, enfatizou a longa trajetória de mobilização das famílias circenses em busca do reconhecimento do circo como patrimônio cultural. Para ela, essa conquista simboliza o reconhecimento de uma vida inteira dedicada à arte. “Estamos há tantos anos nesse projeto porque ele é extremamente importante para nós. Não é apenas material; é imaterial. Refere-se à nossa arte e às nossas vidas dedicadas desde pequenos até onde podemos chegar”, comentou. Edlamar dedicou essa vitória à sua família e, especialmente, à sua mãe, afirmando que “esse reconhecimento é como um Oscar para o circo brasileiro”.
O reconhecimento também destaca os desafios enfrentados pelos circenses. No transcorrer do processo, foram identificadas diversas barreiras, como a burocracia para a instalação de circos, a falta de áreas adequadas nas cidades, dificuldades em acessar direitos básicos e preconceitos relacionados ao nomadismo. O parecer técnico enfatiza que o pedido de registro se conectou não apenas ao valor cultural do bem, mas também à necessidade de condições adequadas para que essa forma de expressão continue a existir.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, salientou que o reconhecimento do circo como patrimônio cultural provoca uma reflexão sobre as políticas públicas direcionadas ao setor circense. Ele observou que o processo de registro fornece um diagnóstico crucial sobre as condições de cidadania dos artistas e das comunidades circenses no país. “Essa avaliação é muito relevante do ponto de vista da cidadania e nos auxilia a refletir sobre a eficácia das políticas públicas”, disse. Leandro também destacou a importância do debate gerado pelo processo, que leva a uma análise das estruturas institucionais que, muitas vezes, impõem barreiras autoritárias em diferentes níveis do Estado brasileiro.
Perspectivas Futuras para o Circo de Tradição Familiar
Com o registro, inicia-se uma nova fase voltada à salvaguarda do Circo de Tradição Familiar. O dossiê recomenda que o Iphan, em colaboração com a Funarte e outras instituições, amplie a mobilização da comunidade circense, elabore diagnósticos das políticas existentes e desenvolva ações de apoio que garantam a sustentabilidade sociocultural dessa tradição no Brasil. A salvaguarda deverá levar em conta dimensões sociais, econômicas, legislativas e institucionais, buscando fortalecer as condições para a produção, reprodução e transmissão desse patrimônio cultural.

