A Influência do Tráfico na Vida de Paraty
A expansão do Comando Vermelho em Paraty, uma cidade famosa por seu Centro Histórico e belezas naturais, tem gerado preocupações entre os moradores e comerciantes locais. Relatos de famílias que perderam entes queridos para a violência do tráfico são comuns. Uma mãe, que preferiu não se identificar, compartilhou sua dor ao perder dois filhos, vitimados por essa realidade cruel. Ao longo de um ano, O GLOBO acompanhou a trajetória de dez adolescentes envolvidos no tráfico; seis deles já perderam a vida.
As comunidades da Ilha das Cobras e Mangueira, localizadas a apenas 13 minutos a pé do coração turístico de Paraty, enfrentam uma triste realidade. Desde 2010, essas áreas têm sido alvo de facções criminosas, especialmente durante a implementação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) no Rio de Janeiro. Enquanto o Comando Vermelho dominava a Ilha, o Terceiro Comando Puro ocupava a Mangueira. As disputas entre esses grupos se tornaram parte da rotina local, conforme relata Alice, uma caiçara da Mangueira. Com lágrimas nos olhos, ela menciona ter perdido, pelo menos, 20 amigos entre 13 e 18 anos, muitos deles tentando escapar da vida no crime. O clima tranquilo de Paraty, muitas vezes associado às suas praias e ao Centro Histórico, contrasta fortemente com o que ocorre nas comunidades.
“Quando você chega à Praça da Paz, o clima muda. Existe um silêncio, um vazio, é muito triste”, desabafa Alice. Ela recorda que, em um passado não muito distante, sua casa estava cheia de amigos. Agora, restou um vazio imenso, refletindo uma realidade que poucos percebem. Por conta da violência, Alice e sua família foram forçados a deixar seu lar. “Saímos com a roupa do corpo e nossos cachorros. Foi duro deixar o lugar onde trabalhamos toda uma vida”, conta, expressando a dor de ter que abandonar suas raízes.
Conflitos e Expulsões na Comunidade
As expulsões de moradores em Paraty tornaram-se uma triste constante, à medida que o Comando Vermelho se fortalece na região. A 167ª DP já investiga casos de ameaças e violências, como a que ocorreu no final do ano passado no Morro do Ditão, onde traficantes foram vistos intimidando moradores.
Outro residente da Mangueira, Jorge, compartilha sua preocupação com o aumento da violência e do tráfico em sua comunidade. Ele observa que o perfil dos traficantes é, em sua maioria, composto por adolescentes. Relatórios do Instituto de Segurança Pública mostram que, no ano passado, 48 menores foram apreendidos e em 2024, o número já chegava a 28. Com isso, Jorge decidiu enviar seus filhos para outro estado, buscando protegê-los da influência do tráfico.
“É complicado viver aqui. O tráfico está tomando conta de tudo. Eu evito passar por algumas ruas, mesmo conhecendo a maioria das pessoas”, confessa. Ele menciona ainda que motoristas de carros de luxo frequentam a área, gastando cifras altas em drogas, o que intensifica sua preocupação com os jovens da comunidade.
O Efeito da Violência no Turismo e na Economia Local
A chegada do Comando Vermelho em áreas tradicionalmente turísticas, como a Praia do Sono e Trindade, preocupa empreendedores locais. Traficantes têm extorquido barqueiros e comerciantes, criando um ambiente hostil para turistas. A situação se agravou a ponto de moradores locais, conhecidos como caiçaras, precisarem agir para proteger suas comunidades de ações criminosas.
Na 167ª DP, existem pelo menos seis investigações relacionadas à exploração territorial do Comando Vermelho, mas a falta de denúncias tem dificultado a resolução dos casos. Locais como Paraty-Mirim, Costeira e Ponta Negra enfrentam problemas graves, com relatos de extorsão a empresas de turismo. O Centro Histórico, apesar de ser um marco turístico, ainda não possui denúncias relacionadas a crimes, mas a preocupação é crescente entre os moradores.
Reunião Pública e Demandas da Comunidade
Diante da escalada da violência, uma reunião na Câmara Municipal no dia 19 trouxe à tona as preocupações da comunidade. Questões como a ausência de um posto policial em Trindade e a falta de atuação de órgãos responsáveis por reservas ambientais foram discutidas. O prefeito Zezé (Republicanos) lamentou a falta de um juiz na cidade, enquanto o tenente-coronel Lourival Belitardo anunciou um reforço de 90 agentes de segurança a partir de março.
Alice e Jorge não apenas falam sobre a violência, mas também mencionam o aumento exorbitante dos aluguéis em Paraty. “Uma casa de dois quartos custa mais de R$ 2 mil por mês. Para quem recebe um salário mínimo, isso é inviável”, destaca Alice. Ela conclui lembrando que, embora vivam em áreas mais afetadas pela violência, são eles que sustentam a vida cultural da cidade, contribuindo para o funcionamento do turismo mesmo à margem da sociedade.

