Como o Samba-Enredo Se Transforma em Espectáculo
O Carnaval é mais do que uma festa: é o resultado de um processo meticuloso que começa com uma ideia e culmina em um desfile grandioso. O trajeto desde a concepção de um samba-enredo até a sua apresentação na avenida é repleto de etapas, cada uma delas essencial para o sucesso do espetáculo. Inicialmente, a ideia surge de diferentes fontes, seja uma lembrança de um familiar, um pedido da diretoria da escola de samba ou uma sugestão vinda da comunidade.
Caio Araújo, carnavalesco da Mocidade Alegre, destaca a importância da proposta que, para o Carnaval de 2026, surgiu do filho da homenageada, a atriz Léa Garcia. “O primeiro passo não é apenas aceitar a ideia, mas avaliar se há material suficiente para construir uma narrativa sólida e visualmente impactante”, explica Caio. É nesse momento que a equipe se depara com a necessidade de decidir se o tema é uma verdadeira joia pronta para ser lapidada.
A decisão inicial é crucial e envolve limitações práticas, como o calendário da escola, a disponibilidade de fontes e a aceitação da comunidade. Ao transformar a ideia em um recorte mais específico, o trabalho dos enredistas se expande. Tiago Freitas, enredista da Império de Casa Verde, ressalta que o próximo passo é definir subtemas e imaginar como cada elemento visual será apresentado no desfile. Muitas perguntas precisam ser respondidas: que histórias serão contadas? Que imagens serão efetivas a 50 metros de distância? Quais partes do samba podem ser exploradas?
A Importância da Pesquisa no Processo Criativo
Uma vez que a ideia se torna um recorte, inicia-se o trabalho de pesquisa, que, segundo João Gustavo Melo, enredista da Unidos do Viradouro, é uma verdadeira curadoria. Essa pesquisa combina diferentes camadas, incluindo bibliografia acadêmica para assegurar a precisão histórica, iconografia para ajudar na visualização e, em algumas situações, a vivência de campo.
Ele ressalta a importância de ir a terreiros, por exemplo, para entender práticas culturais que não podem ser plenamente compreendidas sem a experiência direta. No caso da homenagem a Léa Garcia, a pesquisa envolveu entrevistas e análise de fotografias que ajudaram a capturar a essência de seu legado.
O objetivo da pesquisa é transformar informações em espetáculo, criando uma curadoria que define o que é traduzível. Caio Araújo explica que cada experiência assistida é uma oportunidade de coletar informações que poderão ser eventualmente convertidas em visualidades para o desfile. Um fato histórico pode se transformar em uma homenagem rica em significados visuais, e um depoimento pode se transformar em uma parte fundamental da sinopse do samba.
Da Sinopse à Realização: A Roteirização do Carnaval
A sinopse, então, se torna o elo entre a pesquisa e a criação. Tiago Freitas explica que a sinopse não é apenas um documento informativo; é um roteiro prático que orienta compositores, carnavalescos e toda a equipe envolvida no barracão. Essa sinopse deve inspirar o samba, direcionar a concepção plástica e ainda servir como justificativa técnica para o Livro Abre Alas.
O tempo é curto, e após a escolha do samba, maquetes e protótipos começam a tomar forma. O barracão se transforma em um verdadeiro canteiro de obras, onde as soluções estéticas e técnicas são constantemente ajustadas até o limite do possível. O processo culmina em um intenso trabalho que se estende por pelo menos seis meses, sem intervalos.
O verdadeiro impacto do trabalho se revela apenas quando as fantasias são entregues e os carros saem do barracão. Caio descreve esse momento como o nascimento de um filho: “Ao ver nosso carnaval indo para a rua, sentimos que nossa criação finalmente ganhou vida”. É essa jornada — que vai da sugestão à pesquisa, da sinopse à produção — que conduziu a Mocidade Alegre e a Unidos do Viradouro rumo a apresentações memoráveis, superando os imprevistos que sempre surgem na pista.

