Desigualdade no Crescimento Econômico Brasileiro
No início de março, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a performance do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025. Os números apresentados revelam uma realidade preocupante: enquanto o PIB do Brasil cresceu modestos 2,3%, a agroexportação, frequentemente associada ao agronegócio, avançou 11,7%. Essa discrepância levanta a questão: esse crescimento do setor agroexportador realmente reflete um progresso para a nação? O que se observa é uma economia que parece estagnada, especialmente quando comparada ao aumento de 3,4% registrado em 2024. Os dados do quarto trimestre mostram uma variação mínima de 0,1%, o que indica que a economia brasileira avança em um ritmo alarmantemente lento. Sob uma política monetária restritiva, com a taxa Selic elevada a 15% ao ano, o chamado crescimento parece mais uma ficção para o trabalhador cotidiano. Na verdade, o país enfrenta um processo de desindustrialização acelerada, com a indústria de transformação apresentando uma queda de 0,2%, o que revela a deterioração das forças produtivas nacionais em favor da exportação de produtos primários, que possuem baixo valor agregado.
O crescimento da “agropecuária” foi o destaque entre os dados oficiais, com um aumento expressivo de 11,7% em 2025. O governo de Luiz Inácio e a mídia frequentemente exaltam esse crescimento como motor da economia nacional, mas ignoram que tal avanço, em grande parte, se dá às custas da soberania nacional. O foco do agronegócio em commodities como soja (14,6%) e milho (23,6%) visa essencialmente o mercado externo, abastecendo as demandas de países imperialistas, enquanto as necessidades alimentares do povo brasileiro permanecem negligenciadas.
O economista Rodolfo Margato, da XP, em entrevista ao InfoMoney, ressaltou que o latifúndio e a indústria extrativa, que também teve um crescimento de 8,6% no ano, foram fundamentais para esse que ele denomina como “pibinho”. Segundo ele, sem a contribuição desses setores menos afetados pela política econômica, o crescimento do PIB teria sido apenas em torno de 1,3%, um número bem inferior aos 2,3% apresentados. Adicionalmente, o Banco Safra corroborou esse ponto, afirmando que os dados refletem uma economia brasileira em um ritmo abaixo do potencial, com indícios de uma demanda doméstica fragilizada.
O Custo de Vida e o Poder de Compra
O crescimento da agroexportação, por sua vez, é sustentado por um maciço fluxo de recursos públicos. No Plano Safra 2024/2025, por exemplo, o governo destinou impressionantes R$ 447 bilhões ao setor, além de oferecer isenções bilionárias para quem não contribui com a produção de alimentos voltados ao consumo interno, mas sim visa maximizar os lucros em relação ao mercado internacional.
O economista Bruno Imaizumi aponta que a situação também é afetada pela diminuição da participação da “agricultura familiar” na produção nacional, em meio ao avanço do agronegócio. A produção familiar, que deveria abastecer o mercado interno, está sendo constantemente eclipsada pelo latifúndio, que prioriza a produção de grãos voltados à exportação.
Enquanto o agroexportador celebra seus números positivos, a indústria nacional enfrenta um crescimento pífio de apenas 1,4%, em grande parte sustentado pelo extrativismo mineral e petrolífero, que cresceu 8,6%. O Brasil está se consolidando como um grande exportador de minerais e petróleo, atendendo à crescente demanda dos EUA e da China, enquanto a produção interna de bens de capital continua em queda, dependente das importações, o que reforça a vulnerabilidade da economia brasileira.
Realidade das Famílias Brasileiras
A disparidade entre os números apresentados pela propaganda oficial e a realidade enfrentada pela população é alarmante. Em janeiro de 2026, os dados da Neogrid e do Instituto Brasileiro de Economia da FGV Ibre (Fundação Getulio Vargas) indicam uma alta significativa no preço da cesta básica em todas as capitais analisadas. Em São Paulo, o custo saltou para R$ 953,25, um aumento de 1,56% no mês. Em Salvador, a alta foi ainda mais acentuada, atingindo 2,34%. O Rio de Janeiro, por sua vez, registrou um aumento acumulado de 4,6%, com o valor da cesta básica chegando a R$ 989,40 em apenas seis meses.
O problema se agrava no Norte do Brasil, onde em Manaus, os custos da cesta básica subiram 18,43% nos últimos seis meses, resultado da dependência de produtos industrializados e dos altos custos logísticos num país que negligenciou sua infraestrutura. Quando se analisa a “cesta ampliada”, que inclui itens de higiene e limpeza, o custo no Rio de Janeiro chega a R$ 2.252,31, um valor que supera o salário mínimo, revelando a dura realidade que as famílias enfrentam diariamente.
Mesmo com o aumento do salário mínimo para R$ 1.621 em 2026, o poder de compra das famílias continua 8% abaixo do nível pré-pandêmico (2010-2019). Em 2012, um salário mínimo podia comprar 2,28 cestas básicas; atualmente, em São Paulo, esse valor caiu para 1,9 cestas. A renda média mensal também apresenta uma queda significativa, sendo 11% inferior ao período anterior à crise de 2020.
O consumo das famílias, que representa uma parcela crucial da atividade econômica, desabou de um crescimento de 5,1% em 2024 para meros 1,3% em 2025, e no último trimestre do ano, o consumo estagnou em 0,0%. Apesar da narrativa de “recordes” de renda real que circula no discurso oficial, o custo de vida corrói essa renda, levando o endividamento familiar a um impressionante patamar de 79,5% em outubro de 2025, o maior índice desde 2010.
A realidade para as famílias que trabalham nas cidades é marcada por dificuldades financeiras e uma busca incessante por melhorias nas condições de vida. Com a propaganda oficial clamando por “pleno emprego”, 30,5% das famílias estão enfrentando problemas de inadimplência, e 13,2% afirmam que não conseguirão honrar suas dívidas. O poder de compra de alimentos, essencial à sobrevivência, permanece abaixo dos níveis que existiam antes da pandemia, enquanto a inflação dos itens básicos continua a pressionar o orçamento familiar, resultando em um cenário onde, mesmo com empregos precários, os trabalhadores conseguem comprar menos do que em 2020.

