Violência Política e Infiltração de Facções
Em um cenário alarmante, o Ceará vive uma intensa crise de segurança pública, refletida nas recentes eleições municipais. A história de José Braga Barroso, conhecido como Braguinha, reeleito prefeito de Santa Quitéria, ilustra bem essa realidade. Durante sua festa de vitória em outubro de 2024, marcada por descontração e música, ninguém imaginava que, dois meses depois, ele estaria detido pela Polícia Federal. A prisão preventiva foi motivada por investigações que indicavam a possível participação do Comando Vermelho nas eleições locais, levantando sérias suspeitas sobre a influência do crime organizado na política.
A Polícia Civil já monitorava a atuação dessa facção, que, originária do Rio de Janeiro, tem se expandido no comércio de drogas no Ceará. As investigações apontaram para uma atuação direta do grupo na campanha de Braguinha, com denúncias de ameaças a opositores e intimidações a eleitores. Em sua defesa, Braguinha refuta as acusações.
Um Cenário de Coação e Intimidação
O caso de Braguinha não é único. Ao menos seis cidades cearenses relataram a presença de facções nas eleições de 2024, com registros de coação e ameaças, gerando preocupação entre as autoridades. Renato Roseno, deputado do PSOL e presidente do Comitê de Prevenção e Combate à Violência da Assembleia Legislativa do Ceará, destacou essa situação como uma das maiores ameaças à democracia, alertando para a possibilidade de organizações criminosas tomarem o controle do Estado.
As investigações em Santa Quitéria revelaram que um membro do Comando Vermelho teria se envolvido na campanha de Braguinha, promovendo atos de violência contra apoiadores da oposição, como pichação de casas e destruição de veículos. Adicionalmente, funcionários da Justiça Eleitoral na cidade também foram alvos de ameaças.
Após ser solto, Braguinha foi cassado em maio de 2025. A eleição suplementar que se seguiu em outubro resultou na vitória de seu filho, Joel Madeira Barroso (PSB), consolidando a influência da família na política local.
Outros Casos de Envolvimento Criminoso
Em Potiretama, o então prefeito Luan Dantas, do PP, foi preso em maio sob a suspeita de ter encomendado um incêndio criminoso. A acusação implicava um vínculo com o PCC (Primeiro Comando da Capital), facção de São Paulo. Dantas, assim como sua vice, foi cassado em outubro pela Justiça Eleitoral, mas por abuso de poder político, e não pelo crime em questão. Uma eleição suplementar está agendada para março.
Na cidade de Iguatu, o prefeito Roberto Filho (PSDB) foi indiciado e cassado por abuso de poder político, com alegações de apoio de um chefe de facção. Apesar de negar as acusações, ele conseguiu reverter a cassação na Justiça Eleitoral. Além disso, a Polícia Federal prossegue com investigações em Martinópole, onde um vereador é suspeito de compra de votos.
Violência e Intimidação no Processo Eleitoral
A violência não se restringe a acusações diretas contra candidatos. Em Sobral, Oscar Rodrigues (União Brasil) e Izolda Cela (PSB) relataram dificuldades para acessar certos bairros devido a ameaças associadas a facções. Isso se tornou um obstáculo significativo para suas campanhas. No contexto de Fortaleza, um suplente de vereador foi cassado por ameaças a adversários, enquanto em Caucaia, 40 pessoas foram presas sob suspeita de participar de ameaças e intimidações durante a campanha.
Casos inusitados também vêm à tona, como em Santa do Acaraú, onde a prefeitura recebeu mensagens ameaçadoras de facções através do site oficial da Ouvidoria. O secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, afirmou que a influência do crime organizado nas eleições deve ser combatida de maneira rigorosa e imediata. Ele enfatizou a necessidade de mecanismos para afastar candidatos com vínculos criminosos.
Rumo a uma Política Livre de Criminosos
Para mitigar a presença de facções na política, o deputado Renato Roseno propõe ações de transparência partidária, incluindo maior publicidade na gestão dos fundos eleitorais e regras mais claras para as candidaturas. O PSB do Ceará instaurou uma investigação no Conselho de Ética para apurar a conduta do ex-prefeito Braguinha, refletindo a urgência com que questões de corrupção e crime organizado devem ser enfrentadas.

