Repercussões da Crise no Oriente Médio
A recente escalada de tensões no Oriente Médio teve um efeito direto nos preços do petróleo, com o barril alcançando uma alta de 13%, chegando a US$ 82. Contudo, essa alta não se sustentou, especialmente sob a administração Trump. Mas, o que isso significa para a economia global?
O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, em sua análise, expõe um quadro preocupante do retrocesso dos Estados Unidos em áreas cruciais como educação, inovação e infraestrutura. Dados do exame Pisa, que avalia a qualidade da educação, mostram que a nota dos alunos americanos em matemática caiu de 483 para 465 desde 2003, desempenho inferior à média da OCDE e 60 pontos abaixo da Coreia do Sul. Além disso, a quantidade de patentes registradas pela China superou a dos EUA em 2011 e, em 2024, já era três vezes maior.
Infraestrutura em Declínio
O relatório da Consultoria Eurasia Group, divulgado no início deste ano, evidencia que a infraestrutura nos Estados Unidos apresenta sérias deficiências, especialmente em estados do Sul. Vale ressalta que esse retrocesso começou a ganhar forma nas décadas de 1970 e 1980, quando a desigualdade econômica aumentou e as políticas fiscais favoreciam os mais ricos, resultando na queda da produtividade.
— Essa situação gerou um descontentamento que culminou na ascensão de Trump, que, mesmo com o poderio militar e econômico inigualável, não exerce mais uma liderança incontestável em várias áreas — explica Vale.
Perdas na Inovação e Geração de Energia
Embora o setor privado ainda represente a maior parte dos investimentos em pesquisa e inovação, Vale destaca que a base científica é cultivada nas universidades, que têm sido alvo das políticas de Trump. Historicamente, a China tem investido pesadamente em educação, formando um número significativo de engenheiros e se posicionando como líder em inovação global.
Carlos Primo Braga, professor da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica do Banco Mundial, complementa a análise ao mencionar que, apesar de os EUA ainda serem considerados líderes mundiais em inovação, as decisões recentes de Trump têm comprometido a infraestrutura de pesquisa e desenvolvimento. Ele afirma que, sem continuidade nos investimentos, os Estados Unidos enfrentarão um declínio na capacidade de crescimento a médio prazo.
Cenário Econômico e Desaceleração do PIB
O Produto Interno Bruto (PIB) americano apresentou um crescimento de 2,2% em 2025, uma desaceleração em relação ao crescimento de 2,8% em 2024. Segundo Braga, isso é reflexo das políticas protecionistas e um sinal do início de uma desaceleração econômica. O relatório da Eurasia enfatiza que as novas tecnologias do século XXI, como veículos elétricos e inteligência artificial, dependem de uma infraestrutura sólida e de inovações que, se não forem mantidas, podem fazer os EUA perderem terreno para a China.
Os Efeitos das Decisões de Governo
A intervenção do governo na economia, alertam os especialistas, pode desestabilizar a competitividade americana. Um exemplo recente é a decisão de Trump de vetar o uso de serviços da startup de inteligência artificial Anthropic por agências federais. Essa medida, que também incluiu a compra de participação acionária em empresas como a Intel, é vista como parte de uma estratégia que pode limitar a inovação.
— O presidente parece favorecer uma relação entre o setor privado e o governo que pode fragilizar a competição — avalia Vale, enfatizando que o caminho tomado por Trump pode agravar ainda mais a disparidade tecnológica entre os EUA e a China.
O Dólar e a Ameaça à Hegemonia Americana
Além disso, as políticas de Trump têm contribuído para o enfraquecimento do dólar como reserva de valor global. Na década de 1970, o dólar representava cerca de 70% da economia mundial, enquanto hoje essa fatia caiu para menos de 60%. As reservas chinesas em dólares, por exemplo, despencaram de US$ 1,5 trilhão para US$ 650 bilhões nos últimos dez anos.
Para o embaixador Rubens Ricupero, as ações de Trump podem ameaçar as instituições democráticas dos EUA. Ele alerta que as eleições legislativas de novembro representarão um importante teste à sua administração, que já é vista como uma ameaça ao processo democrático.

