Desafios da Tecnologia na Comunicação Política
Recentemente, o cenário político brasileiro tem sido moldado por um fenômeno intrigante: a distorção da realidade através de conteúdos audiovisuais gerados por inteligência artificial. Essa questão, embora pareça distante das discussões cotidianas, toca em um ponto central da democracia: o sufrágio. A figura do presidente Lula, por exemplo, tem sido retratada de maneiras que provocam reflexões sobre a autenticidade das imagens que consumimos. As redes sociais e os veículos de comunicação estão repletos de vídeos manipulados, como o governador Romeu Zema em um vídeo que o mostra como um cantor, aludindo à cultura mineira, ou a emocionante imagem de Maria Rita ao lado de sua mãe, Elis Regina, em uma propaganda. Mas, até que ponto essa criatividade digital influencia o eleitor?
O que une esses exemplos é a crescente capacidade da tecnologia de criar realidades alternativas. Embora essa sedução tecnológica nos atraia de diversas formas—como pela literatura, filmes ou novelas—é preciso um olhar crítico. O que acontece quando essa evasão da realidade se torna involuntária? Quando grupos são levados a crer que o que é produzido digitalmente é a verdade? O uso indiscriminado de ferramentas de inteligência artificial pode levar a uma alucinação coletiva, transformando a percepção da realidade em um cenário distópico.
A Perigosa Fronteira entre Entretenimento e Política
A utilização da inteligência artificial na política pode ser vista como uma estratégia arriscada. Embora existam criações que parecem inofensivas e até divertidas, a perspectiva de um ambiente eleitoral em que a verdade é constantemente manipulada gera apreensão. O fenômeno dos “cheapfakes”, ou falsificações simples, exemplifica essa inquietação. Segundo estudiosos, essas produções são realizadas com ferramentas básicas, resultando em manipulações que podem enganar o público sem muito esforço técnico. Com isso, a sutileza do engano se torna um problema cotidiano.
À medida que o desenvolvimento das inteligências artificiais avança, as deepfakes — que utilizam tecnologia sofisticada para criar conteúdos audiovisuais extremamente realistas — colocam em cheque a fé pública em informações. Recentemente, um caso no Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão destacou a dificuldade de desmascarar um áudio de campanha considerado falso, onde a Polícia Federal não conseguiu afirmar sua autenticidade. Isso revela um dilema grave no contexto eleitoral: como garantir que a manifestação da vontade popular não seja corrompida por conteúdos fabricados?
Impactos na Democracia e na Confiança Pública
A erosão da confiança nas instituições democráticas pode ser vista como uma consequência direta da manipulação da realidade. Quando as pessoas começam a duvidar da veracidade de documentos e provas digitais, a confiança nas comunicações políticas se fragiliza. Essa realidade foi descrita como uma “erosão da confiança” pelos pesquisadores Alvim, Núñez e Monteiro, que ressaltam que a credibilidade das informações está sendo minada pela proliferação de conteúdos enganadores. Com isso, a eficácia da comunicação entre candidatos e eleitores é comprometida.
No contexto eleitoral, a presença de informações manipuladas pode redefinir a qualidade da democracia. Um eleitor que seja induzido a votar com base em informações falsas está, em última análise, sendo privado do exercício real de sua cidadania. E o risco se agrava quando consideramos que esse eleitor pode não ter consciência de que sua escolha foi influenciada por um conteúdo audiovisual distorcido.
Um Direito Fundamental à Realidade?
Em meio a essa discussão, surge a questão: seria possível afirmar que um “direito fundamental à realidade” se faz necessário para garantir a autenticidade do sufrágio? O debate se intensifica quando consideramos que a Constituição Brasileira, apesar de não explicitamente reconhecer tal direito, abre espaço para a inclusão de direitos não mencionados. É essencial refletir sobre o papel que a tecnologia desempenha na formação da vontade política e na proteção da democracia.
Ainda que os direitos fundamentais sejam tradicionalmente concebidos como garantias explícitas, a realidade atual e as demandas sociais emergentes podem requerer o reconhecimento de novos direitos, como o “direito à realidade”. Isso se alinha ao movimento que busca garantir que a formação da vontade do eleitor não seja sequestrada por narrativas fabricadas, destacando a necessidade de preservar a autenticidade do processo eleitoral como um todo.
Portanto, a discussão sobre o uso ético e responsável da inteligência artificial no contexto eleitoral é mais do que uma questão técnica; é um imperativo moral. A sociedade deve deliberar coletivamente sobre a adoção dessas tecnologias, ponderando não apenas seu potencial inovador, mas também os riscos que apresentam à autonomia do eleitor e à saúde da democracia. Afinal, preservar a verdade é um passo fundamental para assegurar o exercício pleno da cidadania.

