Análise da Disputa Política em Torno do Cinema Brasileiro
Um ano após o impacto global do filme “Ainda estou aqui”, o longa “O agente secreto” voltou a acirrar a disputa política entre o governo federal e o bolsonarismo, especialmente após suas indicações a premiações internacionais, incluindo o Oscar. O levantamento realizado pela consultoria Bites, a pedido do GLOBO, revela que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o autor do post mais engajado a respeito do filme, atingindo impressionantes 1,2 milhão de curtidas. Além disso, Lula ocupou outras três colocações entre as dez publicações mais notórias nas redes sociais.
O filme “O agente secreto” recebeu quatro indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura. Desde o início de 2023, o filme acumulou 3,37 milhões de menções nas redes sociais brasileiras, com quase 70 milhões de interações. Esta tendência mostra que, em 2026, assim como em 2022, a esquerda está se saindo melhor ao capitalizar em torno do sucesso dos filmes brasileiros.
Direita Enfrenta Desafios para Se Impor
Enquanto o bolsonarismo lutava para encontrar uma narrativa forte contra “O agente secreto”, os dados mostram que as postagens de figuras de destaque da esquerda, como a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e a ex-parlamentar Manuela D’Ávila (PSOL), também se destacaram entre as mais engajadas. Por outro lado, a publicação mais repercutida do lado direito veio do deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura no governo Bolsonaro, que tentou defender os investimentos de sua gestão na área, mas com pouco sucesso.
Segundo André Eler, diretor-técnico da Bites, a direita falhou em criar um discurso sólido contra o filme. Ele observa que, ao contrário do ano anterior, quando a direita buscou defender o Brasil no Oscar, desta vez os ataques se concentraram em Wagner Moura e o conteúdo do filme, que aborda a ditadura militar. Essa postura não conseguiu conquistar a população, que, diante do sucesso do cinema nacional, encontrou um espaço de identificação com a narrativa positiva.
O Apoio do Planalto e a Resposta da Direita
Desde o lançamento do filme nos festivais internacionais, o Palácio do Planalto tem manifestado apoio à produção. Em agosto, Lula e sua esposa, Rosângela da Silva, a Janja, receberam Wagner Moura e o diretor Kleber Mendonça Filho para uma sessão especial no Palácio da Alvorada. Neste ano, o presidente e Janja postaram 19 vezes sobre “O agente secreto”, totalizando 3,4 milhões de interações. Comparativamente, o presidenciável Renan Santos (Missão) criticou o ator, mas sua postagem teve apenas 30 interações, e até o pastor bolsonarista Silas Malafaia, que tentou atacar Moura, também não obteve grande repercussão.
A trama de “O agente secreto” gira em torno de Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um especialista em tecnologia que volta ao Recife em busca de paz e reconciliação com o filho, ambientado em 1977, com críticas claras à ditadura militar. Os dias 11 e 12 deste mês marcaram o pico de menções nas redes após a vitória do longa na categoria internacional do Globo de Ouro, onde também venceu no “Critics Choice Awards”.
Críticas ao Governo Bolsonaro e Reflexões sobre o Passado
A equipe de “O agente secreto” não hesitou em criticar o governo bolsonarista durante sua campanha internacional. O diretor Kleber Mendonça Filho, ao receber o Globo de Ouro, comentou a guinada à direita do Brasil nos últimos dez anos, enfatizando que esse período já ficou para trás. Ele também se referiu à prisão de Jair Bolsonaro, destacando a irresponsabilidade do ex-presidente em não liderar o país de forma adequada.
Wagner Moura, ao receber reconhecimento internacional, ironizou a gestão bolsonarista, agradecendo-a indiretamente por levar a equipe a refletir sobre a memória da ditadura. Ele afirmou que o filme é resultado da perplexidade diante dos eventos que marcaram o Brasil entre 2018 e 2022, ressaltando que a eleição de Bolsonaro trouxe uma retrocessão dos valores democráticos.
A Polarização e o Debate Cultural
No contexto atual, o cientista político Fábio Vasconcellos analisa que a polarização em temas culturais é uma tendência nas democracias ocidentais, onde a agenda cultural mobiliza intensamente a sociedade. Segundo ele, o debate público está se deslocando para um modelo onde as emoções e afetos se sobrepõem ao raciocínio lógico, uma dinâmica exacerbada pela ascensão das redes sociais.
A cientista política Carolina Botelho complementa, afirmando que o bolsonarismo se articula contra a internacionalização do cinema nacional, apoiando-se nas guerras culturais e teorias da conspiração. Para ela, o cinema brasileiro, que é um pilar da cultura nacional, sofreu com a diminuição de recursos e com a criminalização da classe artística durante o governo anterior.

