Transformação Global com Semaglutida
No último final de semana, após a expiração da patente da semaglutida, a principal substância ativa nas canetas emagrecedoras, o mundo começa a vivenciar uma nova fase na luta contra a obesidade. Países como Brasil, Índia, China e México estão na vanguarda desta revolução, que promete não apenas promover uma perda significativa de peso, mas também influenciar profundamente a economia, a sociedade e a cultura global.
É importante destacar que, apesar de sua eficácia na perda de peso, as canetas emagrecedoras não curam nem previnem a obesidade, uma condição crônica que é resultante de diversos fatores ambientais, como a alimentação inadequada, o estresse e a falta de atividades físicas. No entanto, o aumento no acesso a estes medicamentos pode trazer benefícios substanciais, como a diminuição dos gastos com saúde e a melhora da produtividade, além de impactar setores econômicos variados, como alimentação e transporte aéreo.
O Cenário Atual das Canetas Emagrecedoras
Atualmente, os medicamentos Ozempic e Wegovy, ambos da Novo Nordisk, são os únicos que contêm semaglutida e já tiveram suas patentes expiradas. A Eli Lilly também possui o Mounjaro, que ainda está sob patente. Contudo, até o final deste ano, espera-se a introdução de aproximadamente cem novos medicamentos que contenham semaglutida, ampliando significativamente o mercado. Esses novos produtos não serão necessariamente genéricos ou na forma de canetas, mas terão a mesma composição química.
O impacto das canetas emagrecedoras e suas implicações econômicas são o foco de uma série de reportagens que O GLOBO inicia a partir deste domingo (22). O projeto inclui conteúdos diversificados, como newsletters e vídeos, além de uma cartilha que reúne informações atualizadas sobre esses remédios.
Potencial de Crescimento e Acessibilidade
A pesquisa do J.P. Morgan revela que, até o início de 2026, apenas 7% dos pacientes com diabetes e 2% da população global com obesidade estão utilizando esses medicamentos. Por outro lado, a revista Lancet estima que 27% da população mundial poderia se beneficiar do tratamento, mas o custo elevado ainda limita o acesso a essas opções.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade é uma das crises globais mais preocupantes, afetando 44% dos adultos em todo o mundo. Essa condição é responsável por aproximadamente 5 milhões de mortes anuais, principalmente devido a doenças cardiovasculares. Além disso, os custos relacionados à saúde aumentam em 8,4% na Europa e nos Estados Unidos, e a obesidade pode custar até 3% do PIB global até 2035, um impacto comparável à pandemia de Covid-19.
Desafios e Oportunidades para o Futuro
O hepatologista João Marcello de Araújo Neto, professor da UFRJ, ressalta que, embora essas drogas representem mudanças significativas na vida de muitos pacientes, as soluções para a obesidade precisam ir além do tratamento individual. É fundamental repensar a forma como a sociedade lida com essa doença complexa, que está cada vez mais disseminada, principalmente em nações de baixa e média renda.
No Brasil e na Índia, a situação é alarmante. A Índia, que possui 1,4 bilhão de habitantes, apresenta 70% de sua população acima do peso. No Brasil, 62,6% dos adultos estão nessa condição, com 25,7% se classificando como obesos, segundo dados do Vigitel/Ministério da Saúde.
A Federação Mundial de Obesidade (FMO) projeta que o custo econômico global associado ao sobrepeso e à obesidade poderá alcançar US$ 4,32 trilhões anuais até 2035. Esses custos incluem tanto o tratamento de doenças relacionadas à obesidade quanto a perda de produtividade, com pessoas afetadas tendo 8% mais chances de perder o emprego.
Expectativas para o Setor de Saúde e Alimentação
Projeções otimistas indicam que, com a introdução das novas drogas, poderemos observar uma redução significativa nas taxas de infartos e AVCs até 2030, além de um impacto no consumo alimentar e na economia do setor aéreo. Por exemplo, uma companhia aérea americana poderia economizar mais de 100 milhões de litros de combustível por ano se cada passageiro perdesse cerca de 10 quilos.
Entretanto, o impacto no setor de alimentos não é positivo. Uma análise de um banco de investimento indica uma possível redução de 1,3% na ingestão calórica nos Estados Unidos até 2035, o que pode afetar a indústria de forma negativa.
Novas Iniciativas e Acesso ao Tratamento
Com o aumento da oferta de medicamentos com semaglutida, espera-se que os preços também diminuam. No Brasil, 17 laboratórios já solicitaram análise à Anvisa, com uma previsão de queda de preços entre 30% e 40% nos próximos meses. Em grandes mercados como a Índia e a China, o número de novos medicamentos deve ser ainda maior, com reduções de preços que podem chegar até 80%.
No Brasil, o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) fará a diferença ao oferecer semaglutida a 150 pacientes, em uma iniciativa não incorporada ao SUS, mas fruto de um acordo especial com a Novo Nordisk. A endocrinologista Lívia Lugarinho destaca a importância de iniciativas como essa para atender aqueles que mais precisam de tratamento.
Glaucia Rocha, de 43 anos, uma das beneficiadas, exemplifica a luta de milhões de brasileiros contra a obesidade. Após perder 250 quilos com cirurgia bariátrica, ela agora espera emagrecer ainda mais com o uso das canetas. Sua história reflete não apenas as dificuldades pessoais, mas também as barreiras sociais e econômicas que muitos enfrentam.
Com a introdução dessas novas drogas, o futuro parece promissor, mas desafios persistem no acesso e na equidade do tratamento. Para que a revolução na luta contra a obesidade seja eficaz, é essencial garantir que todos tenham acesso às novas opções de tratamento, independentemente de sua condição financeira.

