A Nova Fase de Eduardo Cunha
“Esqueçam o que se foi; não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova!” Com essas palavras, o ex-deputado federal Eduardo Cunha saudou seus seguidores na virada do ano, evocando um versículo do Livro de Isaías. Essa mensagem reflete sua busca por uma nova fase após sua queda na Lava-Jato, onde foi cassado e preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Agora, Cunha aposta na pregação religiosa, em pautas conservadoras e no discurso antipetista para tentar recuperar seu espaço na política.
A jornada de Cunha para retomar a influência começa em Minas Gerais, onde ele se estabeleceu após quinze anos de carreira política no Rio de Janeiro. Recentemente, o ex-parlamentar adquiriu pelo menos cinco emissoras de rádio, em sua maioria voltadas para o público evangélico, e também investe em patrocínios esportivos, como o do Uberaba Sport Club, que disputa a segunda divisão do Campeonato Mineiro. “Mudei de residência, de vida profissional. Era natural que mudasse minha vida política”, justifica. Ele tem se encontrado com lideranças políticas e religiosas e participando de programas em suas rádios, seguindo uma estratégia semelhante à que o levou à vitória anteriormente.
Estratégia Política e Relações Familiares
Em 2025, Cunha consolidou sua mudança de domicílio eleitoral para Minas, um movimento que tem um forte cálculo político: evitar a competição com sua filha, Dani Cunha, que está em busca da reeleição à Câmara. Apesar de estar fora do poder há quase uma década, o ex-deputado permanece conectado às esferas políticas. Em novembro, ele direcionou uma emenda de 1,05 milhão de reais para a cidade de João Pinheiro, o que foi amplamente reconhecido pelo prefeito Gláucon Cardoso em um vídeo no Instagram.
Em Brasília, a influência de Dani se mostrou crucial. Uma emenda polêmica à Constituição, que Cunha apresentou em 2012 e que poderia proibir totalmente o aborto, foi ressuscitada e aprovada na Comissão de Constituição e Justiça no final de 2024, aguardando votação no plenário. Além disso, Dani conseguiu aprovar um projeto que limita a inelegibilidade a oito anos, o que, embora não beneficie diretamente Cunha, mostra que a família ainda possui um poder considerável na política.
Passado Conturbado e Expectativas Futuras
A ineligibilidade que o aflige terminará em 2027, reintegrando Cunha ao cenário eleitoral. Ele vê a cassação como um episódio que não lhe deixou rancor, atribuindo a sua situação a um jogo político. “Foi um processo absolutamente político”, afirmou, mencionando uma desavença com o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ele compara sua história com a de outros deputados, como Glauber Braga, que enfrentou uma suspensão pela sua conduta violenta, afirmando que não recebeu os mesmos direitos.
No discurso de sua possível campanha, Cunha se apresenta como uma figura indispensável ao Congresso, destacando sua “capacidade de articulação” e seu “papel central em votações complexas”. No entanto, o cenário político atual é diferente daquele que ele conheceu. Sob a liderança tumultuada de Hugo Motta, há um questionamento sobre sua relevância. “Não sou apóstolo para ter discípulos”, defende, ressaltando que Motta chegou ao cargo de maneira distinta da sua, em um momento de consenso.
Retorno às Urnas
Cunha já tentou retornar à Câmara nas eleições de 2022, ao se candidatar por São Paulo, mas seu caminho foi repleto de desafios jurídicos, resultando em apenas 5.044 votos e uma posição distante entre os candidatos. Agora, ele se prepara para um novo pleito, mas precisa de um novo partido, pois não pretende continuar no Republicanos. Enfrenta um litígio com Cleitinho Azevedo, um senador do mesmo partido que questionou publicamente a possibilidade de reeleição de Cunha.
O ex-presidente da Câmara acredita no seu potencial de retorno e, como fez em sua mensagem de ano-novo, espera que o eleitor já tenha esquecido seu passado. O tempo dirá se Eduardo Cunha conseguirá reescrever sua história na política brasileira.

