Análise do Desempenho dos Cursos de Medicina no Brasil
Um estudo recente revelou que cerca de 30% dos cursos de medicina avaliados pelo Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enamed) não atingiram os critérios de qualidade estabelecidos. Essa constatação levantou uma onda de reações no meio acadêmico e profissional. Associações que representam instituições de ensino criticaram o Ministério da Educação (MEC) e questionaram a metodologia empregada na avaliação, enquanto entidades como o Conselho Federal de Medicina (CFM) defenderam a implementação de uma avaliação obrigatória para médicos, uma proposta que está em análise no Congresso e é frequentemente comparada ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
No total, 351 instituições de ensino superior de Medicina foram analisadas, das quais 340 estão sob a regulamentação do MEC. Dentre essas, 99 obtiveram notas de conceito 1 e 2, o que implica que poderão enfrentar sanções administrativas. Essas sanções podem incluir a limitação na oferta de novas vagas, redução do número de turmas e até suspensão do vestibular, além de restrições ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). As instituições que não obtiveram um bom desempenho têm um prazo de 30 dias para justificar suas notas.
Medidas e Resultados do Enamed
O Enamed avaliou aproximadamente 89.000 estudantes e profissionais, englobando aqueles que estão em formação ou já graduados. Uma novidade deste ano foi a possibilidade de usar a nota obtida no Enamed para inscrição no Exame Nacional de Residência (Enare), um processo que permite acesso a programas de especialização em todo o país. Essa mudança, segundo o MEC, gerou um aumento do interesse entre os participantes.
Entre os cerca de 39 mil alunos que estão concluindo a graduação, cerca de 67% alcançaram a nota mínima necessária para comprovar a proficiência, que corresponde ao conceito 3. Isso significa que aproximadamente 13 mil estudantes não demonstraram os conhecimentos considerados essenciais para a prática médica.
Os dados revelam que a maior parcela de cursos com notas insatisfatórias está nas instituições municipais (87% com conceitos 1 e 2) e nas universidades privadas com fins lucrativos (61%). Em contrapartida, os melhores desempenhos foram registrados nas universidades federais e estaduais.
O ministro da Educação, Camilo Santana, destacou a importância das instituições privadas na ampliação do número de vagas em Medicina no Brasil, no entanto, enfatizou que a qualidade do ensino deve ser mantida. “Queremos que haja garantia de qualidade na oferta desses cursos”, afirmou.
Consequências e Propostas para o Ensino Médico
César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), classificou os resultados como alarmantes, apontando para uma situação “caótica” no setor. Ele alertou sobre o risco de se admitir profissionais que não possuem as competências necessárias e destacou que 50% dos médicos formados atualmente não têm um conceito satisfatório.
A Federação Nacional dos Médicos (FNM) reiterou a urgência da aprovação de uma prova de proficiência para os recém-formados, ressaltando que a proposta já avançou em uma comissão do Senado, embora tenha enfrentado resistência do governo. Em contrapartida, o ministro Camilo Santana sinalizou a possibilidade de o Enamed assumir essa função no futuro.
“É alarmante a situação do ensino médico, com a abertura indiscriminada de escolas e a formação de profissionais sem a devida qualificação. Isso exige uma ação imediata”, comentou a FNM.
Reflexões sobre a Avaliação da Educação Médica
Alexandre Nicolini, especialista em gestão acadêmica, apontou que os resultados do Enamed evidenciam um problema estrutural que avaliações anteriores não haviam conseguido identificar. Ele defende que a responsabilidade pela qualidade da formação é do MEC e sugere que, se uma avaliação final for implementada, isso deve ser feito em colaboração com o Inep, órgão que possui a experiência necessária para conduzir esse tipo de teste.
Além disso, a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) expressou descontentamento em relação à divulgação dos resultados do Enamed, alegando que houve divergências entre os dados apresentados pelo MEC e os que foram divulgados posteriormente. A entidade aguarda esclarecimentos antes de tomar uma posição definitiva.
A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) também expressou preocupação com a gestão do MEC em relação ao Enamed, criticando a forma como os parâmetros de desempenho foram estabelecidos após a aplicação da prova e os efeitos punitivos impostos às instituições. “Demandamos um processo mais transparente e justo”, finalizou a ABMES.

