O Papel Estratégico da Energia Nuclear no Brasil
A energia nuclear é considerada vital para que o Brasil atinja não apenas a autonomia energética, mas também a soberania nacional, especialmente em um cenário onde as economias globais demandam fontes de energia estáveis. Esse cenário geopolítico desafiador impacta diretamente as cadeias de petróleo e gás natural. Esse ponto de vista foi enfatizado por especialistas durante o Nuclear Summit, realizado na Casa Firjan, um centro de inovação e tendências da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, na última segunda-feira (23). O evento contou com o apoio da Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan).
O professor Júlio César Rodriguez, que leciona relações internacionais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ressalta que o Brasil precisa investir em energia nuclear devido à escalabilidade dessa fonte energética. “A energia nuclear é uma chave para o Brasil dominar sua própria autonomia energética e, além disso, conquistar a autossuficiência tecnológica”, afirmou o professor à Agência Brasil.
Segundo ele, ao dominar todo o ciclo, desde a extração dos minérios até o desenvolvimento de reatores, o Brasil estaria elevando seu status a um patamar de desenvolvimento industrial, tecnológico e científico similar ao de potências mundiais.
A Hora é Agora para Energias Renováveis
Celso Cunha, presidente da Abdan, apontou que a energia nuclear possui características essenciais. “Ela é limpa, ocupa um espaço reduzido e possui alta eficiência tecnológica”, afirmou. Para Cunha, a conjuntura ambiental e os conflitos geopolíticos internacionais reforçam os benefícios de se investir nessa fonte energética.
“Um país que não tem independência energética enfrenta dificuldades para se desenvolver. Dependência energética impede o crescimento”, destacou ele. Embora o Brasil possua diversas fontes renováveis, como solar, eólica e hidrelétrica, Cunha enfatiza que a energia nuclear oferece uma oferta constante, desvinculada de fatores climáticos, como a presença de sol ou a intensidade dos ventos.
Além disso, ele vê uma oportunidade significativa para o Brasil na exportação de combustível nuclear. “Podemos gerar receita substancial ao vender combustível, ao invés de simplesmente exportar o minério in natura, que não agrega tanto valor. O momento ideal para impulsionar a energia nuclear é agora”, concluiu.
Desafios e Preocupações Ambientais
Apesar de ser considerada uma fonte de energia limpa pela indústria, a energia nuclear gera preocupações entre ambientalistas, especialmente em relação ao armazenamento seguro dos resíduos produzidos. No Brasil, a Comissão Nacional de Energia Nuclear está empenhada na definição de um local adequado para o armazenamento de pastilhas de urânio.
Mayara Mota, assessora de integridade e gestão de risco da Empresa de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBpar), abordou a necessidade de dominar o ciclo completo do urânio, o combustível da energia nuclear. “Atualmente, a conversão do urânio ocorre fora do Brasil. A intenção é trazer essa infraestrutura para o país, pois já possuímos a técnica necessária”, explicou.
A conversão se refere à transformação do yellowcake (concentrado de urânio) em hexafluoreto de urânio, um processo crucial para o enriquecimento e transporte do combustível nuclear. O ciclo do urânio é monopolizado pelo Estado e sua utilização é restrita a fins pacíficos. A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) é responsável pela operação da única mina de urânio do país, localizada em Caetité, na Bahia, enquanto o enriquecimento é realizado em Resende, no Rio de Janeiro.
O Futuro da Energia Nuclear no Brasil
Atualmente, o Brasil opera duas usinas nucleares, Angra 1 e Angra 2, localizadas em Angra dos Reis, no litoral fluminense. Juntas, elas têm capacidade para gerar 2 gigawatts (GW), suficiente para abastecer uma cidade como Belo Horizonte, que tem cerca de 2,3 milhões de habitantes. A construção da usina Angra 3 está parada, e o governo brasileiro está avaliando se concluirá o projeto, que poderia acrescentar 1,4 GW ao sistema elétrico nacional. A obra inacabada gera um custo de cerca de R$ 1 bilhão por ano ao país.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estima que o custo para abandonar definitivamente as obras de Angra 3 pode oscilar entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, cifra que pode superar o investimento necessário para finalizar o projeto, estimado em R$ 24 bilhões. A decisão sobre a continuidade da obra cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que congrega diversos ministérios.
A Energia Nuclear na Transição Energética
Regina Fernandes, consultora técnica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ressaltou que a energia nuclear assumirá um papel cada vez mais relevante no compromisso do Brasil com a transição energética, reduzindo a dependência de combustíveis mais poluentes, como o petróleo. “Fontes de energia firmes e limpas têm um espaço garantido na matriz energética a longo prazo e devem receber incentivos, especialmente em um contexto de urgência climática”, enfatizou a especialista.
Recentemente, no dia 10, o governo brasileiro anunciou sua adesão à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear, uma iniciativa que visa mobilizar governos, indústrias e instituições financeiras para aumentar a capacidade instalada dessa fonte energética até 2050, assinatura dada durante a II Cúpula sobre Energia Nuclear, em Paris.

