Estudo Inédito Sobre a Resposta ao Tratamento de Esclerose Múltipla
A esclerose múltipla é uma condição autoimune crônica que afeta o sistema nervoso central, impactando tanto o cérebro quanto a medula espinhal. No Brasil, estima-se que cerca de 15 em cada 100 mil pessoas vivam com essa doença. Pesquisa realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) analisou 116 pacientes diagnosticados com esclerose múltipla, buscando entender as razões pelas quais diferentes pacientes respondem de forma variada aos medicamentos disponíveis.
Compreender a eficácia do tratamento é crucial, uma vez que a resposta aos medicamentos pode variar consideravelmente. Enquanto alguns pacientes obtêm resultados positivos, outros podem experimentar pouco efeito ou até mesmo reações adversas. A pesquisa, liderada por um grupo multidisciplinar da Uerj, se aprofunda nas nuances dessa resposta individual, investigando o papel da genética nesse contexto.
A Influência Genética na Resposta a Medicamentos
O estudo busca esclarecer a relação entre as variações genéticas e a eficácia do tratamento, utilizando o conceito de farmacogenética, que analisa como as características genéticas individuais influenciam a absorção e ação dos medicamentos. Essa abordagem é parte da medicina de precisão, que visa tratamentos mais personalizados, levando em conta as particularidades de cada paciente, em vez de se basear em dados populacionais.
O grupo de pesquisa da Uerj contou com a colaboração de neurologistas, farmacêuticos, biomédicos e estudantes de diversas áreas da saúde, integrando clínica e pesquisa de maneira eficaz. A dissertação de mestrado de Rafaella Cardoso, em conjunto com o aluno Matheus Matos, destaca a importância do trabalho colaborativo e do desenvolvimento de novos cientistas na área.
Metodologia e Resultados da Pesquisa
Os pacientes foram acompanhados em dois hospitais universitários no Rio de Janeiro, sendo o Hospital Universitário Pedro Ernesto (Uerj) e o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ), ambos reconhecidos por suas contribuições ao Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa obteve amostras de sangue de pacientes que concordaram em participar, permitindo análises das moléculas que afetam o funcionamento do sistema imunológico.
As variantes genéticas analisadas, conhecidas como polimorfismos, estão presentes em genes que codificam receptores Fc-gama, fundamentais para a resposta imunológica. Os resultados mostraram que combinações específicas, como os genótipos AG no FCGR2A e AC no FCGR3A, estão associadas a um menor risco de falha no tratamento com o medicamento natalizumabe.
Além disso, os dados sinalizam que as variações genéticas influenciam também os níveis de moléculas inflamatórias no sangue, indicando diferentes mecanismos biológicos que podem explicar as respostas variadas ao tratamento. Destaca-se que a genética não age sozinha; fatores clínicos e ambientais também são cruciais na determinação da eficácia do tratamento.
Importância do Investimento em Pesquisa e Próximos Passos
Realizada com apoio de agências de fomento à ciência no Brasil, como Faperj, Capes e CNPq, esta pesquisa é um marco no campo da farmacogenética aplicada à esclerose múltipla. Além de trazer novas informações sobre a genética da doença, também reforça a relevância social da pesquisa, uma vez que reflete a realidade da população brasileira atendida pela rede pública.
O grupo de pesquisa continuará a investigar outras variantes genéticas que possam impactar a resposta ao natalizumabe, além de desenvolver modelos experimentais para um entendimento mais profundo dos mecanismos biológicos envolvidos. Esses avanços podem levar a tratamentos mais adequados e personalizados, aprimorando a abordagem terapêutica e beneficiando diretamente os pacientes.

