O Cenário Atual da Educação no Paraná
A educação pública no Paraná enfrenta um momento crítico de reconfiguração de sua identidade, conforme expõe o artigo de Luiz Fernando Rodrigues, um funcionário de escola. A propaganda oficial ressalta a imagem de uma “escola de excelência”, sustentada por dados e inovações tecnológicas. No entanto, a realidade vivida dentro das escolas é marcada por um processo de mercantilização dos direitos educacionais, onde o papel dos educadores é cada vez mais substituído por plataformas digitais e parcerias com o setor privado.
Luiz Fernando delineia uma linha do tempo que conecta as lutas históricas por educação às atuais preocupações com assédio, violência e a desvalorização profissional sob a gestão de Ratinho Jr. O texto convida à reflexão sobre a escola como espaço de construção da cidadania ou como um mero balcão de negócios a serviço dos interesses mercantis.
O Que Está Acontecendo nas Escolas Estaduais?
Se você fosse questionado sobre a situação da escola estadual mais próxima, o que diria? Nos últimos anos, assistimos a uma crescente narrativa que sugere que as escolas se tornaram locais de doutrinação ideológica. Contudo, o que realmente se observa é uma disputa que vai além das ideias: trata-se da ideologia do mercado infiltrada nas práticas educacionais.
Lembro-me dos debates da Conferência Nacional de Educação (Conae) de 2010, que abordou a luta pelos 10% do PIB para a educação pública. Naquela época, o setor privado já tentava se apropriar dessa discussão. Discutíamos a necessidade de estatizar o Sistema S (Sesi, Senai, Sesc, Senat), que existia apenas devido ao investimento público. A legislação aprovada anos depois retirou o termo “público” e passou a tratar investimentos apenas como “educação”. Até 2025, ao término do PNE, apenas 5,5% do PIB foram efetivamente investidos. O novo PNE, atualmente vigente, prevê um crescimento gradual, com a meta de 10% até 2036. Resta saber se será alcançada.
No contexto atual, quase tudo na escola pública se transformou em produto. O modelo privatizado proposto pelo governo Ratinho Jr. (PSD) é apresentado como inovação, mas o que ocorre é a terceirização e quarteirização do trabalho de professores e funcionários. Empresas recebem milhões para “administrar” as escolas, mas uma grande parte desse investimento é direcionada ao lucro, enquanto investimentos em infraestrutura, como ar-condicionado, são negligenciados.
Desafios e Críticas à Gestão Escolar
O foco nas estatísticas e resultados tem moldado a propaganda estatal de uma “escola de excelência”, que não condiz com a realidade. Muitas aulas, por exemplo, deixaram de utilizar métodos tradicionais, como o quadro e giz, e passaram a depender de plataformas digitais custosas que não efetivamente ensinam. Essa abordagem é uma prática criticada e já abandonada por países que são referências em educação, como a Suécia.
Além da privatização, a gestão de algumas escolas públicas tem sido compartilhada com policiais militares aposentados. Muitas vezes, esses profissionais não possuem a formação necessária para lidar com ambientes escolares e, em alguns casos, recebem salários superiores aos de professores capacitados. Essa situação tem gerado episódios de assédio e violência nas escolas, como o caso de uma funcionária em Toledo, que foi ameaçada com uma arma durante um conflito com um policial.
O governo transformou a educação pública em uma espécie de balcão de negócios, onde os “amigos do mercado” têm acesso a recursos. Na última semana, a gestão estadual anunciou um projeto de digitalização de documentos, uma iniciativa que, embora positiva, ofusca o trabalho realizado por funcionários que passaram meses organizando arquivos. Agora, uma empresa privada receberá R$ 20 milhões para realizar serviços que já foram praticamente concluídos. E, num movimento alarmante, o governo também promoveu a venda de escolas na Bolsa de Valores de São Paulo, entregando a construção e exploração de 40 unidades escolares à iniciativa privada.
O Futuro da Educação Pública no Paraná
Enquanto isso, professores e funcionários enfrentam uma perda salarial que se aproxima de 50% nos últimos oito anos da administração de Ratinho Jr. A precariedade nas escolas, as fraudes em índices de frequência e aprovação, e o sucateamento da infraestrutura educacional são questões que alimentam a insatisfação. A entrega da educação a interesses privados tem gerado um cenário de luta constante entre aqueles que defendem uma escola pública como um espaço de aprendizado e convivência e o governo, que tenta se desvincular de suas responsabilidades por meio da terceirização da gestão educacional.
Estamos cansados, doentes e desvalorizados, mas a nossa luta pela educação pública de qualidade e pela construção de cidadãos livres e conscientes continua. É uma batalha diária, e cada vez mais essencial para que possamos sonhar com um futuro onde a educação realmente transforme a sociedade.

