Análise da Queda na Busca por Novas Reservas
O Brasil chegou ao final de 2025 com uma realidade preocupante: completou uma década de estagnação na busca por novas fronteiras para a exploração de petróleo. Esse cenário resulta de uma combinação de fatores, como a baixa nas cotações internacionais da commodity e as dificuldades em obter licenças ambientais necessárias para operar.
Embora o governo tenha se esforçado para conceder áreas em bacias ainda não exploradas, a expectativa é que a atividade permaneça em ritmo lento nos próximos anos, devido à previsão de preços baixos do petróleo. O processo de exploração envolve a confirmação da presença de petróleo no subsolo, o que exige pesquisas sísmicas para identificar potenciais reservatórios.
Desafios na Exploração e Licenciamento Ambiental
Essas pesquisas são seguidas pela perfuração de poços, onde as empresas confirmam, na prática, se encontram ou não petróleo ou gás em determinadas áreas. Atualmente, a Petrobras está realizando esse trabalho na bacia da Foz do Amazonas, após um turbulento processo de licenciamento ambiental.
De acordo com dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis), a atividade de exploração no Brasil não avança desde a crise do petróleo de 2014, quando os preços despencaram para cerca de US$ 40 por barril. Apesar da recuperação dos preços nos últimos anos, a situação continua desfavorável.
Nos anos de pico da busca por reservas no pré-sal, o Brasil chegou a registrar mais de cem poços exploratórios anualmente, sendo que o recorde aconteceu em 2011, com 150 poços. Em contraste, em 2025, foram apenas 19, e em 2024, o número caiu para 10, o menor índice do século 21.
Desinvestimento e Mudanças Estruturais no Setor
Focando na atividade em áreas marítimas, onde se concentra o maior potencial de petróleo do Brasil, o cenário é igualmente desolador: em 2025, apenas 10 poços foram perfurados, comparados a 150 em 2011. Especialistas do Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás e Biocombustíveis) indicam que, historicamente, a quantidade de poços perfurados estava ligada aos preços do petróleo. Contudo, essa relação começou a se desvanecer a partir do final da última década.
“A drástica diminuição no número de poços não se deve apenas à dinâmica dos preços, mas sim a uma retração nos investimentos exploratórios, indicando uma mudança estrutural na alocação de capital no setor”, explicou o instituto.
A Petrobras, principal motor da exploração no Brasil, optou por direcionar seus esforços para desenvolver as reservas do pré-sal descobertas nos anos 2010. Com um plano estratégico voltado para investimentos em plataformas e equipamentos submarinos, a empresa levou o Brasil a se tornar um grande exportador de petróleo.
Perspectivas Futuras e Desafios Ambientais
Apesar dos bons resultados na ampliação das reservas conhecidas — em 2025, a Petrobras descobriu 1,7 barril para cada barril produzido, principalmente na região do pré-sal —, a ANP destaca que apenas três bacias marítimas apresentaram descobertas relevantes nos últimos anos: Santos, Campos e Sergipe-Alagoas.
A ANP, em seu anuário da exploração de 2024, apontou que os entraves ambientais associados às bacias de fronteira são uma razão significativa pela qual as campanhas exploratórias nessas áreas não têm avançado. Diferentes governos têm enfrentado críticas de organizações ambientalistas ao defender mais investimentos na exploração, em um momento em que se discute o esgotamento das reservas do pré-sal.
Para tentar reverter essa situação, o país realizou uma série de leilões de áreas exploratórias, resultando em um recorde de 420 contratos em vigor em 2024, número que atualmente é de 400. Entretanto, os investimentos continuam a andar em um ritmo lento. A ANP prevê que haverá 19 poços exploratórios em 2026, 7 em 2027 e 8 em 2028, mas esses números poderão mudar conforme a evolução das atividades de pesquisa.
O Papel da Petrobras e Outras Companhias
Com a queda nos preços do petróleo, a Petrobras revisou sua previsão e reduziu o número de poços exploratórios de 51 para 40 em seu plano de investimentos para os próximos cinco anos, o que resultou em uma diminuição do orçamento destinado à busca por novas reservas, passando de US$ 7,9 bilhões para US$ 7,1 bilhões.
A diretora de exploração e produção da Petrobras, Sylvia Anjos, afirmou que a empresa ainda está comprometida com a busca por novas reservas, mas que o ritmo das atividades depende do licenciamento ambiental. “O processo é complexo e envolve múltiplas etapas, exigindo análises técnicas detalhadas”, acrescentou.
Outras empresas que possuem uma quantidade significativa de blocos exploratórios no Brasil, como a Shell, estão cautelosas quanto à retomada da atividade. A multinacional britânica perfurou apenas um poço em 2025, e sua próxima campanha ainda está em fase de estudos. A Shell está envolvida em 59 concessões exploratórias, com foco na margem equatorial e na bacia de Pelotas.
Na bacia equatorial, o setor aguarda ansiosamente os resultados do primeiro poço da Petrobras, que vai determinar os próximos passos. Já a bacia de Pelotas ainda está em fase inicial de exploração, concentrando-se na coleta de dados de pesquisa sísmica. A expectativa é que a análise desses dados seja concluída apenas em 2028, quando a Petrobras e seus parceiros decidirão sobre a perfuração de novos poços.
A empresa de pesquisa sísmica TGS, que iniciou a coleta de dados na porção norte da bacia em novembro, também participou de estudos em outras bacias da margem equatorial. O gerente da companhia no Brasil, João Correa, acredita que a atividade sísmica é um sinal positivo para a volta da exploração: “Se a sísmica não está acontecendo, não haverá exploração”, conclui.

