Uma Noite de Encantamento no Palco
No último domingo, dia 5 de abril, o Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, foi o cenário de uma apresentação inesquecível que marcou o segundo dia da sétima edição do Queremos! Festival. Fitti, cantor, compositor e ator pernambucano, encantou o público ao interpretar o repertório de Ney Matogrosso, que se aproxima de seu 85º aniversário em agosto. A performance de Fitti não se limitou a um simples tributo; foi uma verdadeira celebração da peculiaridade artística de Ney, feita com uma vitalidade surpreendente.
A performance, que integra o álbum homônimo idealizado pelo diretor artístico Marcus Preto, se destacou não apenas pela musicalidade, mas também pela teatralidade envolvente que a acompanhou. Sob a direção musical do talentoso baterista Pupillo e com a presença dos músicos Yuri Queiroga, Vinicius Furquim e Vic Vilandez, Fitti trouxe para o palco uma sonoridade potente que reverberou em cada canção.
Abertura Marcante e Energia Contagiante
O espetáculo começou de forma impactante, com sons de chuva e trovões preparando o público para a entrada de Fitti, que iniciou sua apresentação com “Homem de Neanderthal”, música emblemática de Ney. Desde o primeiro acorde, a energia roqueira tomou conta do ambiente, impulsionando o repertório a um nível elevado, especialmente em canções como “Tem gente com fome” e “Flores astrais”, que trouxeram à tona a força do artista.
Fitti, que não se limitou apenas ao vocal, usou seu corpo e presença de palco para criar uma conexão instantânea com a plateia. Em momentos de destaque, como ao cantar o bolero pop “Bandido corazón”, o artista provocou um deslocamento no show, levando o público a uma nova dimensão musical.
Uma Abordagem Poética e Política
Durante a apresentação, Fitti não hesitou em abordar temáticas sociais e políticas, como evidenciado em sua interpretação de “O patrão nosso de cada dia”. Com um arranjo minimalista e precisos acordes de guitarra, ele destacou a relevância da canção, criando um ambiente introspectivo e reflexivo que ressoou com a audiência. O bis, que trouxe “Noite severina”, celebrou o orgulho nordestino, fechando com chave de ouro esse momento especial.
O toque de Marcus Preto na direção artística foi evidente em toda a narrativa visual do show. Um exemplo marcante foi a troca de figurino de Fitti atrás de um biombo, reminiscente de vários espetáculos de Ney, antes de apresentar “Mal necessário”. Essa habilidade de transitar entre gêneros e provocar reflexões sociais é uma das características que fazem de Fitti um artista único.
Teatralidade e Conexão com o Público
O caráter ritualístico da performance se intensificou em canções como “Bandolero”, onde Fitti interagiu ativamente com o público. Ele incentivou os presentes a cantar junto durante “Sangue latino”, demonstrando uma conexão genuína que transcendeu as barreiras do palco. Em um momento mais íntimo, ao cantar “Viajante”, Fitti se sentou no centro do palco, elevando a carga lírica da apresentação e cativando o público com sua entrega.
Outro ponto alto da noite foi a interpretação de “Dívidas de amor”, uma composição de Leoni e Ney, que Fitti apresentou em uma nova roupagem, mostrando seu talento como compositor. Essa música, que surgiu em um álbum menos conhecido de Ney, trazia um ar de nostalgia e inovação, reforçando a versatilidade do intérprete.
Um Encerramento que Ressignifica a Música
O fechamento da apresentação foi marcado por uma interpretação ousada de “Homem com H”, onde Fitti, como um homem trans, trouxe uma nova perspectiva ao tema forrozeiro. A plateia estava claramente em sintonia com o artista, que conseguiu reinterpretar um repertório que já é parte da história de Ney Matogrosso, sem nunca cair na armadilha do mero cover.
A estreia carioca do show “Fitti canta Ney” deixou claro que o artista pernambucano não só homenageia Ney Matogrosso, mas também traz sua própria identidade a cada canção. Fitti transformou a música de Ney em algo contemporâneo e relevante, ressignificando cada verso e nota de forma autêntica.

