Uma Viagem no Tempo pelo Centro do Rio
Entre os pontos mais emblemáticos da história carioca estão a antiga Praça Onze e a Igreja da Candelária, que resistiram ao tempo e à transformação urbanística que afetou a cidade. A reestruturação do Centro do Rio, impulsionada pela gestão de Henrique Dodsworth, interventor municipal nomeado por Getúlio Vargas, resultou na demolição de habitações populares, espaços públicos e até do Paço Municipal, que abrigou a prefeitura entre 1892 e 1942. Esse período de grandes mudanças foi meticulosamente documentado pelos irmãos Aristógiton e Uriel Malta, filhos de Augusto Malta, o primeiro fotógrafo oficial da cidade, entre 1903 e 1936. O trabalho deles é uma janela para a época da Reforma Pereira Passos, um marco na história da capital fluminense.
Recentemente, mais de 14 mil imagens capturadas por Aristógiton e Uriel foram redescobertas no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). Essas imagens, que estavam guardadas em 11 álbuns e em negativos e positivos de nitrato de prata, passaram por um processo de restauração, identificação e catalogação que durou cerca de dois anos. O resultado é o livro digital ‘Achados & perdidos — Imagens inéditas do Rio de Janeiro’ (2026, Aprazível Edições), um projeto que foi viabilizado pelo edital Pró-Carioca da Secretaria Municipal de Cultura (SMC).
Com organização editorial de Leonel Kaz e gráfica de Sula Danowski, a obra, que está disponível gratuitamente no site do AGCRJ, terá também uma versão impressa prevista para ser lançada em dois meses, com uma tiragem de mil exemplares.
“Essas imagens pertenceram à antiga Secretaria de Viação e Obras e vieram para o Arquivo. Trabalhar com um acervo de oito milhões de documentos é um exercício constante de descoberta. Ao nos depararmos com esse material, entendemos que era um verdadeiro tesouro que deveria ser compartilhado com o público”, explica Elizeu Santiago de Sousa, presidente do AGCRJ.
Um Tesouro Visual do Passado Carioca
A publicação destaca registros raros, como a icônica casa da Tia Ciata, localizada na Rua Visconde de Itaúna, um dos berços do samba carioca. Também estão presentes imagens da Praça Onze e do Canal do Mangue, que, até a metade do século XX, era embelezado por palmeiras imperiais, além do Campo de Santana, antes e depois da derrubada de uma vasta área verde. Outro destaque é a Igreja de São Pedro dos Clérigos, datada de 1733, que é um dos tesouros do barroco nacional, com seus interiores adornados pelo mestre Valentim.
As fotografias também capturam transformações urbanísticas que ocorreram em diversas áreas da cidade. A Zona Sul, em especial, aparece como uma região que, em algumas imagens, lembra muito uma área rural, enquanto o subúrbio ganha contornos com a abertura da Avenida Brasil, que facilitou o crescimento urbano.
“A Igreja de São Pedro dos Clérigos estava entre as primeiras da lista de tombamento do Iphan, em 1938, logo após a criação do órgão, sendo considerada uma das igrejas mais relevantes do Brasil. No entanto, foi destombada e demolida, mesmo diante de um manifesto assinado por figuras como Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes. Muitas construções históricas e novas edificações foram destruídas durante a Reforma Pereira Passos”, ressalta Leonel Kaz.
Essas imagens fazem parecer que o Rio de Janeiro vivia uma espécie de guerra cultural, refletindo uma cidade que se refunda a cada dia. O livro não se limita a discutir arquitetura e urbanismo; ele também aborda o cotidiano e a forma como os cariocas ocupavam esses espaços.
Uma Reflexão sobre o Presente e o Futuro
Segundo Lucas Padilha, Secretário Municipal de Cultura, a relevância do livro vai além de revelar um acervo iconográfico pouco conhecido pelo grande público. “Entender o passado é fundamental para planejar o presente e o futuro. As imagens que vemos no livro são de utopias que duraram pouco, em um período em que Vargas transformou a cidade, que deixou de ser a capital do Brasil”, comenta Padilha. “A memória é um serviço público, assim como o acesso à saúde e à educação. O Arquivo deve facilitar a pesquisa e, ao mesmo tempo, apresentar ao público uma parte de seu rico acervo, despertando o interesse pela memória da cidade.”

