Explorando o Cotidiano Carioca
Em seu novo trabalho, “Gentinha”, o escritor Marcelo Moutinho faz um retorno triunfante ao gênero do conto, imergindo na memória do cotidiano carioca com uma narrativa que combina lirismo e humor. Com uma abordagem que destaca a vida dos habitantes do Rio, Moutinho, que conquistou o Prêmio Jabuti 2022, utiliza a linguagem das ruas e referências musicais para conectar a literatura à cultura popular. O resultado é um livro que se destaca pelo seu estilo poético e personagens que ultrapassam suas situações ordinárias, revelando instantes de beleza e humor.
Escolhendo como epígrafe um breve texto de João Antônio, autor renomado conhecido por seu retrato vívido da vida proletária em São Paulo e no Rio, Moutinho demonstra um ouvido apurado para a sonoridade das palavras e das falas de seus personagens. A habilidade em recriar diálogos autênticos e envolventes é um dos pontos altos de seu novo livro, que marca seu retorno aos contos depois de um hiato de seis anos.
Narrativas que Ganham Vida
“Gentinha” é composto por 16 narrativas divididas em duas partes, onde Moutinho se propõe a dar voz e corpo a figuras intrigantes e efêmeras que povoam o dia a dia da cidade. Através de contos que capturam a essência do cotidiano, o autor revela a forma como as pessoas, tanto de comunidades periféricas quanto de bairros de classe média, laboram e se comunicam, refletindo sobre suas vidas. É uma obra que, sem dúvida, resulta do olhar curioso de alguém que aprecia a liberdade de flanar pelas ruas do Rio.
As histórias, embora curtas, são ricas em detalhes, e a beleza lírica delas se desvela gradualmente. Moutinho nos faz acreditar na proximidade entre nós e os anônimos que habitam nosso entorno. Gentinha se define como uma ficção que aborda a memória cotidiana, e a primeira narrativa, “Queda para o alto”, se destaca por sua conexão com a experiência pessoal do autor. Baseada em eventos trágicos relacionados à morte de sua mãe, a narrativa é marcada por uma secura que intensifica sua dor: “Não, não adianta ligar para o 190, chamar os bombeiros, a ambulância. Basta olhar o ônibus…”.
Memórias e Reflexões Pessoais
O tema da morte da mãe, que também é abordado na crônica de seu livro anterior, “O último dia da infância”, parece continuar a acompanhar Moutinho. A forma como ele explora essa experiência pessoal revela não apenas suas próprias angústias, mas também as emoções dos narradores e personagens que cria. Assim como João Antônio, que brincava com as regras da narrativa, Moutinho também constrói sua obra a partir de um caleidoscópio de histórias que, apesar de divergentes, se encaixam perfeitamente.
Um exemplo notável desse estilo singular é o conto “Conto de Natal”, que narra a história de um ladrão vestido de Papai Noel, que busca roubar um presente especial para seu filho. A linguagem utilizada remete à vivência dura dos personagens, oferecendo um vislumbre da luta diária pela sobrevivência: “O Ilsinho tava na função de render o gerente…”. Aqui, Moutinho encontra uma forma de entrelaçar um vocabulário urbano com toques eruditos, criando uma paródia rica e envolvente.
Personagens que Surpreendem
Os personagens de “Gentinha” vão além de suas circunstâncias comuns, alcançando momentos de surpreendente beleza. Moutinho tem a habilidade de intercalar humor e tensão de maneira eficaz. No conto “Mictório”, por exemplo, um encontro em um banheiro público evoca o filme iraniano “Foi apenas um acidente”, ao trazer à tona memórias traumáticas de tortura.
Outro exemplo, “Paladar infantil”, apresenta um bebê gourmet que, mesmo incapaz de falar, expressa suas preferências alimentares por meio de choros. A presença de alimentos é recorrente nas narrativas, evidenciando como eles ajudam a definir as cenas e a ambientação.
Cultura Popular e Literatura
Canções também permeiam as histórias de Moutinho, conectando literatura, memória e cultura popular através de um amplo repertório musical, que inclui desde Roberto Carlos até Jorge Ben Jor. O texto é marcado por uma linguagem direta e incisiva, representando um “regionalismo urbano” que reflete a profunda vivência do autor em sua cidade.
Moutinho realizará uma sessão de autógrafos de “Gentinha” no dia 9 de abril, às 19h, na Livraria Janela do Jardim Botânico, onde contará com leituras de contos pelos atores Fabíula Nascimento e Bruce Gomlevsky, além de um bate-papo com Mateus Baldi. É uma oportunidade imperdível para os amantes da literatura.

