Atração festiva gera polêmica e reações diversas no cenário político nacional
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva soube que uma escola de samba carioca homenagearia sua trajetória, de metalúrgico a líder do Brasil, ele não escondeu a emoção. O presidente foi flagrado sorrindo enquanto segurava a bandeira da Acadêmicos de Niterói, a agremiação responsável pelo enredo. No entanto, essa homenagem trouxe à tona um acirrado debate político, levando aliados e seu próprio partido a tomar precauções antes e durante o desfile.
Na noite de domingo, Lula optou pela discrição. Durante todo o evento, ele não fez declarações nem concedeu entrevistas, evitando assim qualquer acusação de campanha antecipada. O presidente interagiu com os carnavalescos e, mesmo ao beijar a bandeira da escola homenageadora, fez o mesmo com outras três agremiações, como Imperatriz Leopoldinense, Portela e Mangueira, antes de deixar a Sapucaí, por volta das 5h da manhã.
Desde semanas antes do carnaval, partidos de oposição protocolaram ações judiciais alegando que a homenagem seria uma forma ilícita de campanha antecipada, considerando que Lula está em busca da reeleição nas eleições de outubro. Antes mesmo do início do desfile, as cortes já haviam rejeitado todas as ações, incluindo uma que tentava proibir a realização do evento. Contudo, aliados do presidente e o Planalto prevêem que novas ações legais surjam após o desfile. O Partido Novo já anunciou que pleiteará a inelegibilidade de Lula, alegando abuso de poder econômico.
O desfile da primeira-dama, Rosângela “Janja” da Silva, planejado para encerrar o desfile, foi cancelado por precaução jurídica. Ela chegou a visitar a concentração, mas optou por assistir ao evento no camarote ao lado do presidente, sendo substituída no carro pela cantora Fafá de Belém.
Além de sua presença no carnaval do Rio, Lula também participou de outras festividades no país. No sábado, esteve em Recife, assistindo ao desfile do bloco Galo da Madrugada, um dos maiores do Brasil, e à noite, compareceu ao carnaval de Salvador antes de seguir para o Rio.
Tiago Martins, carnavalesco da Acadêmicos de Niterói, defendeu a homenagem, alegando que não se tratava de campanha, mas sim de um tributo à trajetória de Lula. “É um enredo que narra a vida de um homem que, apesar das dificuldades, chegou à Presidência da República”, disse ele à Reuters.
Por outro lado, críticos apontaram referências na letra do samba ao número 13, que é associado ao PT e à candidatura de Lula. O deputado Marcel Van Hattem, do Partido Novo, foi um dos que criticaram a homenagem, comparando-a a uma adoração ao líder. “Isso lembra regimes como o soviético ou da Coreia do Norte”, alfinetou.
O desfile da Acadêmicos de Niterói retratou a infância humilde de Lula, nascido em Pernambuco, e a jornada de sua mãe em busca de melhores condições de vida em São Paulo. A letra do samba-enredo traz um relato tocante da perspectiva de Dona Lindu, mãe do presidente: “Me via nos olhares dos meus filhos, assombrados e vazios. Com o peito em pedaços, parti atrás do amor e dos meus sonhos”.
A escola obteve autorização de Lula para utilizar sua história no enredo, e após a aprovação, o presidente recebeu Tiago Martins e outros integrantes para um jantar no Palácio da Alvorada, onde se emocionou ao ouvir o samba que foi preparado. Lula, no entanto, enfatizou que a homenagem era mais para sua mãe do que para ele próprio.
Assessores do presidente reconheceram a delicadeza da situação política no contexto do desfile. Diante do aumento das ações judiciais, a equipe de Lula consultou especialistas jurídicos para entender as restrições aplicáveis durante o período pré-eleitoral. Os ministros presentes foram orientados a permanecer no público e a evitar qualquer ato que pudesse ser interpretado como campanha.
O PT também distribuiu recomendações aos apoiadores para que não utilizassem adereços ou menções aos números ou slogans do partido durante o evento, evitando possíveis complicações legais.
Críticos da oposição alegam que as medidas adotadas pelo governo reconhecem que a homenagem pode estar além dos limites legais. Eles argumentam ainda que a Acadêmicos de Niterói recebeu recursos públicos significativos para realizar o desfile, o que abriria margem para questionamentos.
Os advogados do governo, no entanto, defendem que todas as escolas que participam dos desfiles recebem recursos públicos, e que esses fundos não estão atrelados a decisões artísticas. Até o momento, as ações judiciais foram rejeitadas, com os juízes concordando com os argumentos do governo ou apontando falhas processuais. Contudo, um processo ainda pendente no Tribunal de Contas da União (TCU) não foi encerrado, mas uma decisão preliminar já negou a suspensão dos fundos.
Embora Lula já tenha participado de desfiles de carnaval no passado, normalmente essa prática não é comum entre presidentes. A memória do ex-presidente Itamar Franco, que enfrentou polêmicas em sua época, ainda está presente. Para Tiago Martins, o conflito político ofuscou o que considera uma grande conquista artística, ressaltando que o samba celebra a ascensão de filhos de classes menos favorecidas e a importância das suas histórias para o Brasil.

